07 dezembro 2012

BRASIL: COMPORTAMENTO CIDADÃO

 
            O que os meus amigos esperam refletir quando se dão conta que o Estado, o governo eleito, o Poder Judiciário e os representantes no Congresso constroem uma teia de cumplicidade e condescendência com a corrupção, com o tráfico de influência, com o loteamento de cargos públicos, com a apropriação dos recursos públicos?
 
            É minha intenção acalentar sonhos de evolução ética nos hábitos das pessoas, na conduta dos governantes, na integridade dos julgadores, na participação cidadã da sociedade, em cada núcleo social, familiar, corporativo ou sindical.
 
            Desafio-me a acreditar no futuro, em que pese a constatação de que nossos passos são curtos, nossas iniciativas de desenvolvimento sociocultural são modestas, nosso entusiasmo com a prevalência da solidariedade sobre o individualismo desfalece ao primeiro obstáculo.
 
            Urge sairmos da inércia, não para nos rebelarmos ou para reivindicarmos de outrem que adotem as posturas desejadas, mas para que nós sejamos exemplos coerentes e persistentes de uma convivência harmônica entre as pessoas de todas as classes, raças e opções políticas, preservando, sobretudo o bem comum.
 
            Um futuro melhor só será construído a partir das ações do presente, desde que fundadas na ética, na preservação dos valores humanos, no compromisso com o que é público, na promoção do desenvolvimento solidário e responsável.

23 maio 2012

O ESPORTE PREFERIDO

Um dos piores hábitos construídos com o passar dos anos em nosso país é o crescente afastamento de pessoas capazes e bem intencionadas, do exercício da política partidária. Não que os partidos atuais e o modelo de governabilidade negociada sem carimbo ideológico estimule o cidadão comum a participar de qualquer agremiação política.

O problema é que quem abre mão de participar, deixa espaço para outrem, delega suas responsabilidades individuais com a gestão pública àqueles que constroem carreiras apropriando-se do espaço do cidadão, como fazem os guardadores de automóveis (flanelinhas) no espaço urbano das grandes cidades. Se a área não está demarcada, nem ocupada, eles tomam conta. E cobram por isso.

Os políticos, em sua maioria, não se prepararam para essa carreira. São ejetados do povo, das associações de classe, dos meios de comunicação, dos contingentes midiáticos, da vizinhança ativa. Para o bem ou para o mal, saem do convívio familiar, do ambiente regional e das circunstâncias profissionais para se dedicarem a rituais pouco atraentes, a despeito das potencialidades do papel de legislador e da influencia da interlocução institucional.

Um debate sobre a eficácia republicana brasileira, com suas estruturas defasadas e tradições colonialistas fica fora do alcance da política instrumental e imediatista. A manutenção do atual modelo agrada a quem se utiliza dos mecanismos de pressão e compensação para legitimar a obtenção de vantagens, sob a fachada de exercício democrático.

À resignação do tipo “isso não é comigo”, somam-se as generalizações como “os políticos são todos corruptos” ou “eu não vou votar em ninguém”. O resultado é que alguém ocupará os cargos públicos, com maior ou menor representatividade, a depender do modo como a sociedade o escolheu.

O esporte favorito do brasileiro não é o futebol, é a mania incansável e descontraída de criticar os políticos. Como todos sabemos os políticos não são extraterrestres. Eles são pessoas como nós, ocupando os cargos para o qual nós os escolhemos.

Na hora de votar – ou de não votar – pensemos nisso. A eficiência da saúde pública, a qualidade da educação, a segurança e a estabilidade econômica não são apenas partes de um jogo descompromissado, mas as bases para um desenvolvimento sustentável para nós e para as próximas gerações.

06 maio 2012

EMPREENDEDORISMO

A educação é um poderoso instrumento de construção de um futuro melhor para o país, ninguém discorda. Para a tarefa secular de produzir prosperidade no país não podemos prescindir de certas características, que devem ser adotadas pela população que pensa, trabalha e administra esse desenvolvimento.

O empreendedorismo é uma dessas características indispensáveis. Trata-se de criar oportunidades a partir das pessoas, dos bens naturais e da infraestrutura disponível. Requer disponibilidade pessoal, visão e capacidade de inovar. São habilidades que podem ser desenvolvidas, estimuladas na formação curricular, incentivadas pelo Estado.

A destacar a constatação de que quando falamos de empreendedorismo, não nos referimos apenas àquela ação originada na iniciativa privada, que move as empresas e os empreendedores individuais.

O empreendedorismo é útil e necessário em todos os setores e atividades da sociedade. A atitude empreendedora mobiliza pessoas e recursos na gestão pública, no terceiro setor, nos mais variados segmentos.

Exemplos disso emergem nas mais distantes comunidades, sem quaisquer combinações entre elas. Prefeituras que promovem os produtos característicos dos municípios, diretores de escolas que apresentam trabalhos diferenciados em suas escolas com os mesmos recursos das demais, entre tantos outros exemplos que tomamos conhecimento frequentemente.

São agentes de transformação, que empenham energia e criatividade para oferecer a sociedade produtos de maior valor agregado e serviços públicos de melhor qualidade.

O empreendedorismo não combina com mesquinhez, com apego a ideias preconcebidas, com isolamento da comunidade global, com vantagens obtidas através de custos para a coletividade. Ética, solidariedade e respeito à diversidade enriquecem a cultura empreendedora e semeiam melhores condições para a prosperidade.

Há amplo espaço para que o empreendedorismo se desenvolva. Somos um país rico em recursos naturais, privilegiado em sua complexa multiplicidade de raças, e repleto de carências, cujos impactos afetam as mais primárias condições de sobrevivência em algumas regiões.

Temos problemas abrangentes nas áreas da saúde, educação infantil, segurança, infraestrutura, habitacional, agrícola, e muitos outros. Em todos eles, pessoas, entidades não governamentais e lideranças políticas já deram exemplos de que é possível inovar, transformar, construir novas realidades.

O desafio é disseminar essas experiências, fomentando na sociedade o valor das lideranças individuais colocadas a serviço dos resultados coletivos.

29 março 2012

EDUCAÇÃO E EXEMPLO

É comum afirmarmos que o principal problema social é a educação. É provável que essa afirmação exprima variados significados, sendo que o mais aceito é o que identifica que falta educação para os outros, ou que falta educação por causa de outrem.

Políticos, que são encarregados de legislar e governar sobre tudo e todos - inclusive sobre educação - demonstram notável falta dela, especialmente aquele sentido familiar e comportamental, baseado em princípios e valores morais.

No solo gaúcho, oposição e situação mudam suas convicções sobre a remuneração dos educadores, baseados simplesmente numa espécie de mercado demagógico eleitoral.

Para os que estão na oposição, os governantes não remuneram bem os professores por sadismo, uma vontade despudorada de malfazer aqueles que educam seus próprios eleitores, uma falta deliberada de “vontade política” (termo que se tornou jargão nos anos 80) vez que os cofres públicos estão cheios e fartos de recursos.

Basta uma eleição que resulte em descontinuidade e logo se esvaem as manifestações esbravejantes. Ao assumirem a gestão pública, os que antes gritavam em defesa dos salários, enfrentam outros desafios,

Os cofres não estão abarrotados de dinheiro, as demandas que chegam ao gestor são de variadas urgências e as decisões sobre o destino dos poucos recursos que não estão previamente comprometidos, são disputados por diversas corporações que tentam interferir – legitimamente, muitas vezes - a seu favor, e as premências se espalham também nas áreas da saúde, saneamento, estradas, agropecuária, entre outros.

A impertinência descompromissada com a realidade faz professores e opositores embarcarem na insensatez disfarçada de inocência: quem foi eleito para governar que resolva os problemas. O papel da oposição e das corporações é reivindicar, protestar e preparar o caminho para a retomada do poder na próxima eleição.

Essa cronologia anunciada e repetida nas ultimas décadas faz do nosso estado um notável exemplo do que não é prática educativa. O que vemos é o descompromisso com os outros (setores da sociedade), a falta de integridade nas relações e atitudes, o fisiologismo e oportunismo eleitoral, a luta por vantagens descoladas da realidade econômica e social da maioria, a grenalização da política.

Os políticos, e os professores que entram nesse jogo, dão péssimo exemplo de educação em seu sentido mais profundo. Gostaríamos que os jovens forjassem seu futuro com conhecimento e aptidão técnica, sustentados por valores como a verdade, a solidariedade e a convivência democrática.

Para isso a sociedade deve entrar em cena, rever conceitos e atitudes, rejeitar o que está estabelecido para construir o novo, com novas ideias, tendo como finalidade o bem estar de todos.

11 fevereiro 2012

A HUMILDADE

A humildade é a base indispensável para as outras virtudes. A humildade é moderada, diante das atitudes intempestivas. A humildade é respeitosa, frente aos mais experientes.

A humildade é generosa, quando dispõe de seus valores mais nobres. A humildade é silenciosa, em meio as palavras ditas para impressionar.A humildade é modesta, despercebida entre as vaidades e as extravagâncias.

A humildade é uma fonte de sabedoria, para aqueles que têm muito a aprender. A humildade é força pessoal, para aqueles que almejam grandes objetivos. A humildade é resignada, se não pode mudar o arrogante e o prepotente.

A humildade é simples de ser praticada e sensível aos que a rodeiam. A humildade enriquece os relacionamentos, inspira os mais jovens. A humildade surpreende os adversários e derrota sua fúria.

Antes de dizermos “eu te amo”, reconheçamos a singularidade do outro. O amor não é possessivo, não busca seus próprios interesses, não existe para si mesmo. Antes de amar é preciso ser humilde.

Acolher as diferenças, entender os gestos, ouvir sem julgar. Admitir que fazemos parte de uma mesma humanidade, com todas as suas imperfeições. E que somos cúmplices de uma mesma jornada, buscando o nosso melhor.

13 julho 2011

POSSUIR E PERDER

Quando a criança chora porque o seu doce foi comido pelo irmãozinho, ou quando reclamamos na hora do pagamento dos impostos, o sentimento é o mesmo: estão sendo subtraídas as minhas posses.

Livre e explorador por natureza, o homem civilizado, ao longo dos séculos, tratou de demarcar terras, erguer muralhas e levantar cercas.

Ricos e pobres distinguiram-se pela quantidade e qualidade dos bens que foram acumulados no interior de cada propriedade. Roubar, perder, subtrair, são conceitos subseqüentes aos de pertencer, tomar posse, acumular.

O apego à propriedade individual é um despropósito em si mesmo, pois alimenta o culto às diferenças individuais estabelecidas pelos bens materiais, enquanto reduz os objetivos de vida de todos na sua conquista.

À desumana fonte de preocupações econômicas, some-se o escárnio das desigualdades produzidas contra os mais pobres, ou ao deboche, dos que usam o poder para ganhar mais, à custa do sacrifício e desvio do alheio.

Engajados em um sistema de consumo permanente, tornamo-nos vítimas da busca incansável e da satisfação inatingível.

E nos sentimos realmente incomodados quando percebemos pessoas vivendo em desacordo com o sistema, ricas em sensibilidade e prósperas em dignidade, menosprezando as regras estabelecidas, ignorando as cercas que erguemos, subvertendo a nossa resignação.

Não choremos pelo doce que nos foi subtraído, mas pela constatação de nossa falta de humanidade.

21 abril 2011

AOS MURROS E PONTAPÉS


Cada vez que uma professora é agredida numa escola, podemos nos perguntar: onde foi que erramos? Desde quando isso passou a acontecer?

A resposta não é simples. Muitas coisas mudaram, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Nossos modelos tradicionais de convívio social, de formação humana, de estrutura familiar estão indubitavelmente abalados.

As expectativas para o futuro reprovam um retorno ao passado, mas caminham para o estabelecimento de parâmetros novos, de relações menos enraizadas, sob valores mais universais e menos morais.

Na escola e no ambiente das salas de aula as pessoas não se comportam de forma isolada dos costumes da sociedade.

E a perda de referências de autoridade na família, no trabalho, na escola, infelizmente, é uma dinâmica social mais ampla, que não será revertida por práticas pedagógicas ou por voluntarismo dos esforçados professores.

É preciso muita reflexão acadêmica, muita humildade investigativa, muito diálogo público, para que se aspire encontrar alguns pontos de convergência entre a sociedade que almejamos e o estágio em que nos encontramos.

A melhor maneira de evoluirmos, entendo, está em nossa capacidade de articularmos experiências práticas e conhecimento científico.

Urge deixarmos de lado as preferências partidárias, as vinculações mercantilistas e as simplificações ideológicas.

Educação é atividade complexa, de inúmeros significados, construída a partir da história das civilizações, das ciências sociais e da contextualização do ser humano no espaço e no tempo.

Não é tarefa para amadores.

Dar educação, na escola e na família, é formar pessoas, dotadas de valores e de responsabilidades, donas de aptidões e da capacidade de fazer escolhas.

E para enfrentar a vida, não queremos escolher os murros e pontapés, mas a gentileza, a solidariedade, a possibilidade de nos unirmos nas convergências e negociarmos as divergências.

É o que se espera de um país educado e preparado para o convívio global.

06 abril 2011

LIÇÕES JAPONESAS


A recente catástrofe do tsunami no Japão foi exposta nos meios de comunicação à exaustão, por um enorme repertório de meios digitais e eletrônicos utilizados pelas mídias interessadas comercialmente.

As imagens chocantes e os ângulos extraordinários transformam em espetáculo do horário nobre, o drama de milhares de orientais em sua escalada diante de adversidades raramente dimensionadas.

Mais forte do que o visual “spilbergiano” de muitas cenas, é o conteúdo humano das atitudes percebidas no momento da dor e da compaixão, da angustia e da tênue linha da sobrevivência, da solidariedade indispensável e da sensatez inesperada.

A solidez dos valores da sociedade milenar japonesa atua de modo discreto, mas reforça a impressão de que a aparente ocidentalização que mudou a ilha nos anos 80 é uma concessão secundária que permitiu a inserção do país no mercado global, longe de alterar seus costumes e regramentos essenciais.

Diferentes idades, gêneros, origens de classe, não estabelecem diferenças na compreensão fundamental de que o país, a nação, a comunidade estão acima dos interesses individuais, egoístas, personalizados.

O heroísmo protagonizado por homens e mulheres para salvar vidas, sem perder a dignidade e a compostura, diante de tremores de terra intermitentes desafiam a contumaz intolerância a riscos, e a impaciência com os necessitados e menos afortunados, tão presentes no nosso cotidiano.

Quando todos os debates decorrentes desses eventos rumam com certa prudência para questões ambientais, é preciso apreciar as lições históricas que podem ser extraídas desse episódio, em suas dimensões culturais, antropológicas, humanas.

Um país de extensão restrita, estrutura geológica desfavorável, devastado por guerras e tsunamis, resiste a tudo com uma bravura temperada pela guarda da honra, do respeito e da esperança no futuro.

Que as águas do mar revolto lavem as feridas que acometem nossa sociedade, não causada pela força das intempéries, mas pela banalização do consumismo pueril, fonte de ambições desmedidas e indiferenças fatais.
(Debatam comigo pelo e-mail fialhodefialho@uol.com.br)


08 março 2011

O CARNAVAL DOS CICLISTAS


As manifestações que se espalharam pelo mundo afora, após o atropelamento de vários ciclistas em Porto Alegre podem ser o toque que faltava para uma evolução no debate da questão atualíssima da mobilidade urbana.

No planeta inteiro, pedestres e veículos de todos os portes convivem em condições desiguais, e provocam dores de cabeça freqüentes nos governantes locais, que tem posturas muito controversas para tentar resolver ou amenizar os problemas latentes.

Isoladas ou mistas, são muitas as iniciativas adotadas em prol da harmonia dos atores que se movimentam nas cidades: expansão de trens e metrôs, oferecimento de transporte público com maior conforto, cobrança de pedágios em zonas centrais, construção de passarelas e ciclovias, recuperação de calçadões, estabelecimento de rodízios para uso do veículo particular, entre outras.

No Brasil, a resposta do governo à crise econômica que se alastrou nos países desenvolvidos nos últimos anos, foi o incentivo à produção e universalização do carro novo, estratégia de sucesso acompanhada da expansão do crédito, que aqueceu o consumo e gerou empregos a partir das montadoras e das demais empresas que acompanham o desempenho da indústria automobilística.

O crescimento geométrico do numero de automóveis nas estradas e avenidas aprofundou a crise do transito nas grandes cidades e esgotou a já deteriorada malha rodoviária existente.

A complexidade do desafio a ser enfrentado está na concepção de que há um espaço público a ser ocupado, e que nele devem se movimentar as pessoas, independentemente da condição ou da opção de utilizar um veículo para isso.

Ao “colocarem o bloco na rua” os ciclistas alertam para a necessidade de um enfoque mais humano nas decisões que afetam o desenvolvimento e a mobilidade urbana.

Os pedestres se associam ao “samba enredo” dos usuários das “magrelas”, pedindo mais consideração e respeito pelos que trafegam motorizados e pelos que definem as políticas publicas.

Que o movimento de retorno do carnaval, traga uma “evolução” esperançosa para o debate, precursora de uma “harmonia” nas ruas das cidades, digna de uma civilidade saudável para todos.


22 fevereiro 2011

LIÇÕES DO EGITO

As revoltas populares que agitam a África e o Oriente Médio prenunciam novas instabilidades no cenário político internacional e nos instigam a refletir sobre o futuro.

A África historicamente colonizada e explorada por nações européias, busca novas alternativas para seus Estados – a ambição de serem protagonistas de um mundo cujas cartas estão dadas há séculos.

O modelo anglo-americano de exploração e consumo está em cheque: os recursos naturais do planeta agonizam, as gerações conformadas se insubordinam, as políticas tradicionais se exaurem.

Culturas milenares e alheias ao capitalismo ocidental tornaram-se centrais na nova configuração econômica e os velhos modos de negociação e comércio estão sendo repaginados.

O vigor cultural de religiões desprezadas pela modernidade ocidental sedimenta a integração dos cidadãos em luta ética por governos mais sérios.

Os avanços tecnológicos no mundo das comunicações imediatas potencializam os efeitos das intervenções coletivas, e disseminam suas motivações pelo mundo afora pelos pequenos, mas interconectados aparelhos eletrônicos.

As lições do Cairo ainda terão que ser melhor estudadas, e os pretensos parâmetros que norteiam as decisões mundiais deverão levar em conta os novos sinais que vem do intangível, do virtual e das possibilidades instantâneas.

Os indivíduos interagem entre os hemisférios, vencem as distancias em segundos e estabelecem novos horizontes na concepção de Estado, na definição de mundo, na convivência planetária.

Compreender as dificuldades para interpretar as novas relações sociais é um passo fundamental para a elaboração de proposições para o futuro da nossa sociedade.

É preciso retomar as incertezas ideológicas e questionar as convicções econômicas à luz das novas experiências humanas nesse contexto de grandes transformações.

18 janeiro 2011

DRAMA E REALIDADE

Ano após ano se repetem as tragédias na região sudeste brasileira. A época do ano, os locais de risco, a situação dos rios e encostas, a precariedade das habitações periféricas e ribeirinhas, as explicações dos políticos nas diversas esferas governamentais: todas as circunstâncias, os atores e os seus papéis nesse drama da vida real são plenamente conhecidos de todos nós.

Como todo enredo dramático, está recheado de cenas chocantes, de ações miraculosas, de fatos surpreendentes e bizarrices que contornam o assunto principal e distraem o espectador mais atento.

Mas isso não é uma ficção.
 
Políticas públicas são postas em prática ao longo dos anos para gerar resultados no médio e no longo prazo. Destinar alguns milhões de reais para socorrer os locais atingidos pelas chuvas não resolve o problema.

Fala-se em modernos sistemas de monitoramento, caros e de alta tecnologia, para previsão das intempéries de alto risco. Esquece-se que a época das chuvas é sempre a mesma, e que prever a chuva com quarenta e oito horas de antecedência não solucionará as deficiências de saneamento, urbanização, moradias construídas a beira dos rios, monitoramento cotidiano da Mata Atlântica, entre outras ações que os técnicos do Estado há muito vem alertando os grupos políticos que se revezam no poder há muitos anos.

De toda essa lama, salva-se a solidariedade, tão bem protagonizada pela população brasileira, e tão mal aproveitada para a construção de uma cultura de preservação da saúde, de aperfeiçoamento educacional, de hábitos sustentáveis.

01 janeiro 2011

ANO NOVO DEMOCRÁTICO

O novo ano coincide com a posse dos novos governantes estaduais, parlamentares estaduais e federais, e da presidenta da república.

Trata-se de um novo ciclo do exercício político partidário, cujas eleições a cada dois anos, envolvem em uma aparência de rotina o que precisa ser vivido com intensidade e relevância.

Mais do que uma obrigação civil, o voto obrigatório encaminha a convivência democrática, que sintetiza responsabilidades e desafios de eleitos e eleitores.

Projetos políticos disputaram a preferência da população nas urnas, e agora, movida pelo mínimo de coerência de seus autores e defensores, devem ser implementados já que vencedores são.

Eleição não é o fim da democracia, mas um meio, um instrumento fundamental. Um ponto de conexão entre passado e futuro; quando o experimentado torna-se referência para o que se aspira alcançar.

Estagnação, crescimento, euforia ou desespero, não determinam a importância do momento eleitoral. Nem a normalidade, nem o caos devem orientar a participação cidadã, a reflexão cívica, a atividade social.

Programas partidários, modos diversos de governar, expectativas de futuro para a sociedade, são as motivações que nos fazem acreditar nas instituições publicas dirigidas por representantes eleitos constituídos, formados e preparados na sociedade, a imagem e semelhança de todos nós.

No momento, é o melhor modelo de organização que temos. Nosso papel é acompanhar, participar quando possível e principalmente, compreendermos o peso real do nosso voto.

02 novembro 2010

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2010 - OS CANDIDATOS

O resultado da eleição presidencial é a soma de um conjunto de circunstâncias que os cientistas políticos devem esmiuçar com afinco, procurando compreender os recados que os eleitores deixaram nas urnas.
 
As candidaturas mais importantes têm origem em decisões estreitas, tomadas sob a influencias de crises significativas nas relações políticas.
 
O fenômeno Marina Silva, que se constituiu em uma terceira força expressiva e carregada de idéias ambientais contemporâneas, emergiu da crise operacional do governo, ante o impasse de implementar obras de grande impacto econômico e, ao mesmo tempo, atender aos compromissos com a sustentabilidade social e ambiental.
 
Serra, acumulou fardos difíceis de serem carregados: para ser o candidato de seu partido precisou alijar da disputa Aécio Neves, um governador com grande popularidade no segundo maior colégio eleitoral do país; os partidos de oposição não conseguiram apresentar nenhum projeto diferenciado, chegando à esquizofrenia de misturar a defesa da continuidade dos programas do governo Lula, ao mesmo tempo em que silenciaram sobre o desempenho dos governos do PSDB com Fernando Henrique Cardoso.

A própria presidente eleita Dilma Roussef foi alçada a condição de candidata da situação após uma tempestade de denuncias e escândalos que envolveram os principais lideres do PT histórico. Esses acontecimentos forçaram o presidente Lula a utilizar toda sua criatividade e prestigio político, dando luminosidade a uma personalidade política de solidez democrática e administrativa, porem, sem popularidade, nem carisma.
 
Além de Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Sergio Cabral e Tarso Genro, são alguns dos nomes que poderão voltar a cena, para a escolha dos candidatos em 2014.
 
Espera-se, por seus próprios méritos, pela envergadura de suas atuações, pela riqueza de currículos, e não como representantes de uma política formulada em jogadas de bastidores, e de poucos atrativos, como vimos nas ultimas eleições.

14 setembro 2010

FONES DE OUVIDO

Os fones de ouvido são discretos, não tem muito espaço na mídia, sua fórmula de fabricação não parece ter sido alvo de grandes transformações nos últimos anos – pelo menos para um leigo.

Num tempo de tantos recursos eletrônicos, associados com equipamentos de informática e comunicação de última geração, que importância daríamos àquele “fiozinho” que termina em um ou dois minúsculos alto falantes, que encaixamos no ouvido?

Na verdade, eles dizem muito sobre a nossa civilidade atual. Ou você nunca teve que bater no ombro de um filho, para pedir atenção, enquanto ele, distraído, ouvia sua música particular? E o morador do prédio, que já entra no elevador ouvindo música, deixando pra lá os cordiais cumprimentos ao seus vizinhos?

Vivemos em um paradoxo colossal: estamos tanto mais interligados mundialmente que não queremos mais conversa com nosso vizinho.

Na nossa abstração tecnológica, o mundo está em nossas mãos, mas não precisamos nos importar com ele. Buscamos na rede o que nos interessa, falamos para muitos e ouvimos ninguém, exploramos recursos infinitos sem que nos peçam qualquer contribuição. Tudo ali ao nosso alcance.

Tudo? Claro que nasci na geração que não acha que o mundo virtual é tudo, mas é bem provável que os novos ocupantes do planeta gradativamente passem a pensar assim.

Ainda preciso conversar com o vizinho, com o porteiro do prédio, dar bom dia aos colegas quando chego no trabalho, enfim, ainda não me retirei para minha bolha virtual.

Sei que algumas pessoas não gostam de muita conversa, mas muitas precisam ser ouvidas. Para mim, é óbvio que se cada um se retirar para sua sessão particular de música, todos os objetivos da humanidade sucumbem em questão de horas.

Mas mesmo assim, vou procurar me harmonizar com os fones de ouvido. Eles não existem para nos separar, não é mesmo?

15 agosto 2010

CICLOS

A superação de obstáculos é uma parte de uma jornada maior, que teve um inicio e terá uma linha de chegada, nunca como fim, mas como seqüência para outra etapa.

Acontece com os rios, com as plantas, com os animais, com as pessoas, com o planeta.

As crianças nascem chorando, lutam para sobreviver num mundo sem a proteção do útero materno, enquanto aprendem a lidar com as coisas e as pessoas que o cercam.

A adolescência marca a passagem de uma experiência familiar e de expressão individual para uma convivência social adulta, em que as palavras têm que ser medidas, os gestos devem ser pensados, os caminhos precisam ser planejados.

Superadas as fases de transição, o novo traz uma perturbação singela sobre o que fazer diante do mundo que foi descortinado após o novo ângulo de visão.

É nesse momento que os indivíduos fazem escolhas, adotam atitudes, decidem caminhos.

A melhor preparação para o momento de escolher, é viver bem em cada etapa, com a intensidade de quem quer aprender, e com a tranqüilidade de quem sabe que algo novo sempre está por vir, se não interrompermos o ciclo natural da vida.

Não há motivos para nos agarrarmos ao estado atual. Não é inteligente deixarmos tudo para depois. O presente é o nosso palco.

Lamentar o que passou não leva a nenhum lugar. É aqui e agora que podemos aprender e compartilhar, preparando cada momento novo. Em cada dia, somos chamados a repetir o ciclo da generosidade e da esperança, para almejarmos dias melhores.

09 julho 2010

O CASO BRUNO

A exploração maciça e detalhada pela mídia do assassinato da modelo Elisa Samudio é suficientemente rica para vislumbrarmos os detalhes novelescos e macabros que envolveram essa tragédia.

No centro dessa trama perversa estão elementos reveladores das perturbadoras deficiências ocultas da nossa sociedade, essas sim, dignas de nossa reflexão.

Num país em que a carreira de jogador de futebol é a aspiração de pais e filhos a uma vida de altos salários e prazeres sociais, a educação formal e a solidez de caráter são comumente deixados de lado. Semelhante é o caminho trilhado por muitas das meninas que se aventuram em busca de conforto e dignidade, na carreira de modelo.

Tais posturas são facilmente adotadas, quando as alternativas disponíveis são as permanentes pressões dos traficantes de drogas cooptando meninos para atividades ilícitas com recompensas sedutoras, ou a via da educação formal e do trabalho duro, bem menos atraente.

Descolando-se materialmente das suas realidades de origem, jogadores, modelos e outros heróis emergentes absorvem as piores lições daqueles que ora os incensam, ora os desprezam, segundo interesses fúteis e imediatos.

Detestável e irrelevante abordar o fascínio dos jovens das periferias pelas facilidades e imagens de poder despertadas pelos criminosos nas comunidades, e as inevitáveis relações amistosas existentes na convivência local, desde a infância.

Frustrante como nação é percebermos que as instituições mais importantes, sobretudo a escola, são insuficientes contra a dilapidação das mentes e a banalização dos valores que ocorre através das mídias, das artes, do ilícito e do chamado comunitário.

A simbiose desses vazios culturais conflitantes vai corroendo a convivência social, diminuindo a capacidade de intervenção do estado e desestruturando famílias por toda a sociedade.

Como sempre, nessas ocorrências nefastas e perturbadoras para o jantar na frente da TV, aparecerão os críticos dos salários dos jogadores, da falta de punição para menores criminosos, da necessidade de leis mais duras, entre outras.

O tempo apaga as urgências de hoje e cria novos entretenimentos. A hora é de aproveitar a oportunidade de reflexão sobre nossas deficiências, como pessoas civilizadas e como sociedade, ao invés de esperarmos para nos fingirmos surpresos, na próxima tragédia.

20 junho 2010

A ERA DUNGA

A crônica jornalística viu poucas vezes na história recente um personagem tão rico em estereótipos e motivos para inspirar um texto.

 
Pejorativamente falando, tínhamos o presidente Fernando Collor e sua ministra – como é mesmo o nome...? – Zélia, no início da década de 90. Rendiam bons textos, sobre como apunhalar um povo inteiro, e fazer isso parecer normal.

 
Outro líder político – se é que podemos chamá-lo assim – que sempre arregimentou cargas de adjetivos de segunda classe foi Bush, o presidente americano que deu de ombros para a paz mundial, e fez as famílias americanas reviverem os dramas de guerra, que não viviam desde o Vietnam...

 
Atualmente, para nós, o personagem de todas as crônicas é Dunga. Não só de todas as crônicas, mas de todas as conversas de bar, de elevador, de padaria, de corredor do escritório, de motorista de táxi.

 
Nem ele, nem psicólogo algum, consegue explicar o motivo de tão intensa e permanente acidez. Tudo bem, ser técnico da seleção brasileira é uma responsabilidade enorme, todo mundo dá palpites, a mídia ao redor o tempo todo, o Brasil sempre entra com obrigações de vencer, tudo isso é verdade.

 
Mas o Dunga não sabia disso, ao assumir a seleção canarinho?

 
Sabia, e ao que parece adorou a idéia. Ele aproveita muito bem a oportunidade de destilar o seu mau humor em cada entrevista, em cada treino, em cada jogo. E o que motiva esse comportamento:

 
Revanche por ter sido injustamente responsabilizado pelo fracasso da copa de 90 como a “era Dunga”?

 
Sarcasmo por ocupar uma posição onde tantos treinadores competentes e experientes mereceriam estar, e mostrar bons resultados?

Deboche diante da impaciência do torcedor e dos jornalistas com a mediocridade do futebol que ele coloca em prática?

 
Ganhando ou perdendo, sendo campeões ou voltando antecipadamente para o Brasil, nunca iremos entender claramente o que torna um ser humano tão vitorioso, com carreira profissional de sucesso, de caráter respeitado, num verdadeiro Dunga, que de agora em diante significa mal humorado, rancoroso, ácido.

 
Mas de uma coisa sabemos: Dunga é a inspiração permanente para textos irônicos, cronistas atentos e receitas de como não se comportar diante dos outros.
 

01 maio 2010

VALORES E CONSUMO


Se você olhar para fora de você mesmo, irá encontrar uma interminável oferta de distrações, futilidades e guloseimas que lhe transmitirão a doce ilusão de que tudo se resolve num passe de mágica, ou como se saborear um pedaço de chocolate – verdade que é saboroso – tornasse a vida mais completa e significativa.

Nunca é demais lembrar que o sistema em que vivemos alimenta-se de consumo, e produção, para mais consumo. Tornar-se parte dessa sociedade é consumir – porque e para que ainda não sabemos bem...

Estou longe de ser um rebelde anti-capitalista ou um defensor da vida monástica, mas não posso ignorar que estamos nos afastando das mínimas reflexões que nos tornam diferencialmente humanos.
Comportamento ético, solidariedade, educação e formação do caráter das crianças, e até responsabilidade ambiental – que é a última moda em exposição aos holofotes – vão sendo postas em segundo plano, sob o poder de uma "religião" do consumo, da freqüência aos shoppings, da imediatização das novas tecnologias, da infindável busca de se identificar com a originalidade, que nada mais é do que uma repetitiva formavel busca de se identificar com a originalidade, rendendo-se a padronização do comportamento coletivo.

Experimentemos olhar um pouco para o interior de nós mesmos, onde a moda e a quantidade de objetos que temos não tem nenhum valor. É aí que encontramos a verdadeira identidade, e de onde podemos extrair o melhor, para nós mesmos e para os que nos cercam.

12 fevereiro 2010

O PAPEL PROFISSIONAL

A complexidade do ser humano, especialmente para nós, leigos, é formada por uma misteriosa e diversa quantidade de conceitos, teses, pesquisas de campo e argumentações teóricas.

Quando o assunto é o nosso papel profissional, as atitudes e os comportamentos que nos acrescentam ou nos destroem, o que vemos é uma grande quantidade de “gurus” capazes de promover entusiasmos aparentes, suscitando a falsa idéia de que palavras mágicas respondem nossas indagações profundas.

A difícil formulação de alternativas para as complicadas relações que se estabelecem no meio corporativo remete o enfrentamento das dificuldades para além das iniciativas eventuais, do empirismo utilitário, das convenções empresariais.

Na verdade, o centro irradiador de um ambiente menos hostil e mais prazeroso nas relações familiares, sociais, de negócios, é o próprio ser humano.

E o ser humano capaz de liderar pessoas, irradiar solidariedade e inspirar sonhos, precisa ser formado nas suas concepções mais íntimas, ser informado das suas limitações exteriores, e persistentemente buscar descobrir a si mesmo e seu papel nessas interações.

A possibilidade de aprofundamento do papel do homem na sociedade e dos desafios impostos pela sua atuação define o grau de habilidades e dificuldades que será encontrado. O balanceamento desses fatores é a fonte do stress contemporâneo.

Ser líder nos dias de hoje requer coragem, humildade, empatia e integridade. Coragem para agir, humildade para reconhecer falhas, empatia para aceitar o outro, e integridade para viver a própria essência.

Por tudo isso, ler “Terapia do Papel Profissional” de Paulo Gaudêncio, é mais do que uma leitura em busca de novos conhecimentos, mas um exercício de reflexão interior, de afirmação pessoal.

As nossas atitudes básicas em relação a vida e aos outros pavimentam nossa saúde mental, psicológica e física. Os valores que norteiam nossos caminhos podem definir a grandeza das nossas relações com as pessoas e o meio ambiente.

Conhecermos a nós mesmos. Desenvolvermos nossas habilidades. Compreendermos nossos semelhantes. Um bom aprendizado para nossa experiência humana e nosso desempenho profissional.

17 janeiro 2010

O DESAFIO DA VIDA

A vida por um fio. A vida num segundo. A luta pela vida. Só os fortes sobrevivem. Viver é uma grande aventura. Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Viver a vida...

Para uns, a vida é uma alegria, um prazer. Para outros, um grande desafio. Para os que gozam os bons momentos da vida, e a levam leve, a vida é rica, numerosa. Para os outros, um fio de vida pode ter grandes e diferentes significados.

Um minuto pode ser o tempo para escapar de um desabamento, o suficiente para não ser atingido por escombros. Um segundo, pode ser o instante exato para evitar uma colisão num automóvel ou para não ser atropelado.

O tempo para se ganhar ou perder a vida não é previsível. O desafio de viver, entretanto, é constante. De algum modo, todos buscam dar um significado a vida, preenche-la com algo mais, do que o ar que respiramos.

Em tempos de catástrofes significativas, pensamos nos instantes, nas horas, nos dias em que tantos lutaram por suas vidas, e tantos outros, ajudam a salvar vidas. Alguns esperam bravamente por socorro, outros acreditam resolutamente no salvamento, todos querem viver.

Para cada um de nós, a vida é um grande desafio. Ganhar a vida, sustentar a família, vencer as dificuldades, superar os próprios limites, enfrentar os obstáculos, ultrapassar as barreiras.

Vencer na vida pode ser encontrar um emprego, ou alimentar os filhos, ou sobreviver ao terremoto ou ser encontrado em meio aos escombros.

A vitória de cada um pode ser comemorada alegremente, melhor ainda se estivermos ao lado da vitória dos outros. Para muitos, a vitória que almejam é muito pouco comparado ao que já temos, mas é muito mais significativa do que qualquer de nossos esforços, é a vitória da vida sobre a morte. Que cada um de nós façamos a nossa parte no grande desafio da vida.

01 janeiro 2010

ANO NOVO, ATITUDES NOVAS

Faz muito tempo, o país não iniciava um ano novo com tantas expectativas positivas, irradiando alegrias alvissareiras e esperanças espraiadas.

São justificadas as crenças no crescimento contínuo das oportunidades de trabalho, das possibilidades de consumo, das condições mais elementares para uma vida digna e segura.

O Brasil enfrentou a crise econômica mundial com intervenções adequadas e tempestivas, e se o que vivemos não foi uma “marolinha”, também é verdade que poderíamos ter sofrido conseqüências bem piores.

O ano de 2010 se inicia com uma agenda eleitoral complexa, tendo o cargo de presidente da república como vedete de uma disputa recheada de debates repetitivos, porém possivelmente reinventados pelo efeito Marina Silva, que colocará em pauta o tema ambiental.

No meio do ano teremos a Copa do Mundo da África do Sul, a última antes da nossa, em 2014. É tempo de os organizadores aproveitarem a última chance de acompanhar experiências do outros, evitar erros e se anteciparem na preparação competente.

Ademais, como sempre, continuaremos a conviver com as nossas mazelas, já conhecidas e nem sempre confrontadas com o vigor necessário:

a impunidade que favorece políticos e elites, que se utilizam de meios jurídicos infindáveis para proteger seus crimes;

as precárias condições das periferias das regiões metropolitanas, expostas ao medo e destruição a cada chuva mais intensa;

as repetidas chacotas que fazemos das empobrecidas redações dos vestibulandos nos concursos federais, que nos mostram a clara deficiência educacional que precisamos transpor para concretizarmos nosso desenvolvimento;

a lamentável constatação de que multiplicamos e universalizamos a oferta de procedimentos estéticos, obviamente lucrativos, enquanto a espera dos doentes nos hospitais e a falta de condições para o atendimento das populações que não podem dispor de convênios caros, denunciam o descaso da sociedade e dos governantes em relação a saúde pública.

O momento é de transformarmos expectativas em ações concretas, de usufruirmos de um ambiente favorável sem nos esquecermos do que falta ser feito.

Passados os tradicionais festejos da virada, brindemos o novo ano com uma atitude nova, com uma visão ampliada da nossa realidade, e uma alegria solidária, que irradie otimismo e compromisso com uma sociedade melhor.

18 dezembro 2009

NÃO NASCEMOS PRONTOS

A historia das nossas vidas não é uma seqüência lógica, não estava planejada exatamente da forma como aconteceu.

Todos os dias somos surpreendidos, desafiados, instigados a mudar nosso trajeto, nossos pontos de vistas, nossas certezas de ontem.

Assim é a coleta inspiradora dos textos de Mario Sergio Cortella, em “Não nascemos prontos” e em “Não espere pelo epitáfio”.

Os títulos dos volumes logo são anunciadores, convidando o leitor a uma reflexão sobre seu papel no mundo.

Mas a seleta reunião de crônicas escritas pelo autor vai além disso, passando por uma fina ironia sobre o cotidiano, mesclada com os saberes clássicos, de onde Cortella pinça frases que enriquecem suas narrativas, e nos ligam ao permanente e essencial na existência humana.

O que fazemos com o tempo que ganhamos, em nossa busca frenética para não “perdermos tempo”?

Porque não ensinamos o que sabemos, não praticamos o que ensinamos, não perguntamos sobre o que não sabemos? (Monge Beda)

Até quando nos acomodaremos com a síndrome de Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim?

Quando trataremos aquilo que é de todos, como nosso, não apenas nos momentos de usufruir, mas também quando é necessário cuidar?

Quando vamos parar de perguntar “o que vai acontecer?” e passaremos a nos questionar “o que eu posso fazer?” (Denis de Rougemont)

Uma coisa que posso fazer é convidá-los a essas reflexões, compartilhando-as sempre mais com nossos semelhantes, para que possamos inspirar existências mais prazerosas e conscientes.

13 novembro 2009

APRENDER

Todos os dias nós aprendemos algumas coisas. Em todos os lugares, em todos os momentos, encontramos os ensinamentos que vão alimentando a nossa existência.

Aprendemos com as coisas, através das suas formas e cores; seu peso e massa; seu valor monetário ou valor sentimental.

Aprendemos com os lugares, os ambientes; os raios de sol e de tempestades; o verde da matas e das águas.

Aprendemos principalmente com as pessoas.

As pessoas são originais, insubstituíveis, inigualáveis, impiedosamente diferentes.

Nunca poderemos ser igual ao outros. Não poderemos ter a mesma experiência, os mesmos talentos, as mesmas virtudes.

Aprender não é como abduzir ou incorporar.

Somos únicos, vivendo momentos únicos, trocando linguagens e sentidos especialmente vividos no momento presente.

Damos significado aos gestos, atenção às pronuncias, crédito aos olhares.

Aprender é um estado de espírito, próprio de quem sabe o que é mais importante, de quem inspira a criação dos saberes, de quem exprime muito, apenas ouvindo.

Aprender a aprender deve ser parte do ciclo da vida. O ar que respiramos para continuar existindo.

É a via inevitável do caminhar humano. Tanto melhor, se for ao lado dos que amamos, dos verdadeiros amigos, dos que descobrem a nossa humanidade.

Somos humanos para aprender. Aprendemos a ser mais humanos.

Em meio a tantas atividades, negócios, vontades, ambições, aprender é o que verdadeiramente importa.

Ser, crescer, evoluir, com os que nos rodeiam, colocando um ingrediente novo a cada dia, para o bem de todos nós.

12 setembro 2009

FAZENDO HISTORIA

A história de um profissional em uma organização é desenhada a partir de sua iniciativa pessoal, ou a falta dela, enfrentando a dinâmica dos acontecimentos conjunturais, da relação com os demais profissionais e dos resultados produzidos por essa interação.

Para que serve a historia de um profissional?

Para os objetivos práticos e imediatos do mundo competitivo, é um conceito dispensável, na maioria das vezes em que ele é citado. No aproveitamento do indivíduo para uma ascensão na hierarquia da organização, por exemplo, a “bagagem” adquirida no tempo tem sido cada vez mais desvalorizada pelos “caçadores de talentos”.

Entretanto, a organização (essa eu ouvi de um consultor num programa de rádio) não passa de uma figura jurídica “subjetiva”, sem existência autônoma, totalmente dependente da ação, das atitudes e dos comportamentos das pessoas que fazem parte dela, seja nas instâncias de direção, seja nas mais modestas atividades operacionais.

Quando o individuo acumula um determinado conjunto de habilidades, de condutas e de formas de comunicação com seus pares, isso tem importância para sabermos como são os indivíduos que constroem essa organização.

Não podemos imaginar que uma organização seja exemplar pela qualidade no relacionamento com seus clientes e fornecedores, se as pessoas desta organização exibam características antagônicas a essa imagem organizacional. O inverso também não é possível.

As iniciativas pessoais de uns, conflitam com o comportamento de outros, produzindo uma interação nem sempre harmônica. Isso se dá por atitudes intensivas em busca de resultados, em que sujeitos de funções dirigentes atuam sobre seus subordinados, ou em sentido inverso, quando colaboradores interrompem as atividades – uma greve, por exemplo.

O valor da história de um profissional está na sua capacidade de ser humano, integro, mesmo quando a dinâmica das relações internas e externas da organização lhe sejam hostis, ou não lhe favoreçam.

A “bagagem” é um ingrediente rico, quando organizações valorizam a perenidade de sua relação com a sociedade, e optam por construir solidez ao invés de imediatismos.

E mais do que isso, as pessoas que compõem as organizações são as mesmas que moram nas cidades, educam seus filhos, constroem famílias, formam grupos por afinidades esportivas, religiosas, políticas e tantas outras.

Como podemos imaginar que pessoas adotem comportamentos tão distintos para ambientes diferentes, circunstâncias diferentes ou momentos diferentes?

Como construir organizações perenes, integradas com a sociedade, se as pessoas que a constroem submetem sua integridade, seu caráter, sua história pessoal e profissional à sedução dos ganhos financeiros ou à adesão a idéias supostamente inovadoras, que destroem a natureza colaborativa das pessoas que fazem parte dessa história?

As pessoas, presentes ou não nas organizações, precisam de personalidade própria, coragem para ser, persistência para existir.

Com coragem e persistência compreendemos que nossa existência está comprometida com uma sociedade mais humana para nós, para as novas gerações, e para as organizações que sempre farão parte da história das nossas vidas.

03 junho 2009

DEMOCRACIA E ATITUDES

A experiência democrática dos últimos vinte e cinco anos retrata as enormes dificuldades da complexa formação da nova sociedade brasileira.

Na tentativa de explorar as melhores oportunidades em um regime de liberdades garantidas, os políticos e todo o aparato que sustenta as instituições de governo e representação, se auto preservaram, estipulando mecanismos novos ou mantendo os antigos conforme a conveniência.

Partidos foram fundados, re-fundados e multiplicados sob o manto do livre direito de associação e organização, porém descolados de qualquer vínculo ideológico, fragilizando a opção do eleitorado por esta ou aquela linha de governo.

Privilégios formatados no período autoritário perenizam a sensação de castas nas casas legislativas pelo país, como votos secretos, apropriação de verbas sem destinação ao interesse público, proteção jurídica extrapolando a condição necessária ao exercício do mandato, entre outras aberrações que afastam os eleitos do cidadão comum.

O desprezo pela ética acontece às vistas de uma eclética rede de meios de comunicação, que transita entre a palatabilidade das notícias, a repetição banalizadora, ou às vezes, o denuncismo intencionalmente elaborado para favorecer grupos, com aparente imparcialidade.

A desrespeitada "opinião pública" não constrange os que querem consumir recursos públicos em obras desencessárias, viagens improdutivas e distribuição familiar de cargos e salários.

A lógica eleitoral impede a construção de uma reforma política consistente, que aponte para uma elevação qualitativa do processo político-partidário no país. Adia a visão de uma democracia forte, em que despontem os verdadeiros estadistas, a serviço de um futuro mais longo que a próxima eleição.

Passada a euforia dos movimentos sindicais e populares da década de 80, pós regime autoritário, restam poucas organizações sociais de porte, enquanto se diversificam manifestações de grupos específicos, sem capacidade de influenciar mudanças significativas na realidade sócio-política vigente.

A sofisticação das mídias e dos modos de expressão individuais, contrastam com o declínio da sensibilidade social para o combate à fome, à exploração, ao desemprego estrutural, ao baixo nível da educação, saúde e habitação oferecidos à siginificativa parte da população brasileira.

É preciso construir com sentido de urgência, e a partir das pessoas, uma nova esperança criativa e solidária, capaz de modificar as atitudes na perspectiva de uma consciência global, humana e ambientalmente correta.







22 março 2009

AGENDA GLOBAL

Na agenda de todo governante sério, está presente o desafio de defender os interesses locais, dos efeitos destruidores da atual crise econômica.

Na premência de resguardar estágios avançados de desenvolvimento, líderes das grandes nações acenam com um espírito colaborativo nas discussões diplomaticamente importantes, mas não hesitam em proteger seus mercados, com regulamentações protecionistas.

A simples divulgação sistemática da destinação de bilhões de dólares ou euros para empresas ou instituições financeiras não será suficiente para dinamizar a economia global, numa escala que coloque o planeta em um novo ciclo de crescimento.

O resgate das condições internacionais de crédito depende principalmente da criação de uma expectativa de expansão das transações comerciais, que gere um fluxo sólido e crescente de divisas para todos os países.

As medidas de preservação dos mercados locais, alijando as negociações naturais de comércio exterior reduzem as chances de uma dinâmica de recuperação das nações em desenvolvimento.

Ao efetuar o controle estatal das importações, os países ricos exercem seu poder excludente, que deteriora as relações internacionais e contradiz o cântico globalizante dos últimos vinte anos.

É preciso que a comunidade internacional volte a celebrar a liberdade dos mercados, recriando condições para uma nova fase de desenvolvimento capitalista, com mais solidez e menos atitudes discriminatórias.

08 fevereiro 2009

DOM HELDER CÂMARA

Na data em que Dom Hélder Câmara completaria cem anos de vida, é possível recuperar parte da memória que vai sendo esquecida: a história da participação política de religiosos e leigos do catolicismo nos últimos cinqüenta anos.

Teólogos da libertação escreveram palavras nuas de fantasias, sobre as necessárias intervenções políticas e humanitárias, que transcendem o ritualismo religioso, para a transformação da vida dos pobres da América Latina.

Militantes das esquerdas e agentes da ala progressista católica uniram-se na defesa de migrantes, agricultores, favelados, menores de rua e outras categorias menos favorecidas da nossa sociedade.

A própria estrutura da Igreja, através da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), em certos momentos, viu-se contagiada pelo apelo libertário, pela defesa das liberdades democráticas, pela atuação engajada de sua ampla rede pastoral.

Nesse movimento humanitário organizado, Dom Hélder foi expoente de liderança religiosa, capaz de dialogar com as forças conservadoras da ditadura e ao mesmo tempo, defender os direitos humanos dos aviltados pelo regime.

Pacifista, Dom Hélder deixou o legado de alguns dos mais nobres valores humanos: solidariedade, compaixão e esperança.

12 janeiro 2009

CHUVAS E ESTRADAS


O ano novo começa com a existência de fenômenos naturais importantes, que marcam mais uma vez a história do sul do Brasil.

Em plena época de veraneio, quando turistas brasileiros e argentinos principalmente, invadem as estradas da região, a mobilidade é fortemente atingida pelo bloqueio de estradas importantes.

Um intenso regime de chuvas, conjugado com agitação atípica do mar – causada por um ciclone nas proximidades do norte de Santa Catarina – produziu enchentes em cidades as margens de rios, ao sul daquele estado.

Cenas de turistas em situação de isolamento e veículos submersos são mostradas junto com a dos moradores, atingidos em suas casas.

Rodovia fundamental na ligação dos estados da região sul, a BR 101 foi tomada em altura e volume pelas águas do Rio Araranguá, impedindo o fluxo de veículos entre as cidades de Araranguá e Sombrio.

A liberação da estrada aconteceu na noite da última terça-feira, ainda em situação precária, mantendo-se a lentidão no trânsito.

A perplexidade da opinião pública diante do impacto que as intempéries causaram no cotidiano das cidades próximas, levou a imprensa local a divulgar informações desencontradas, causando ainda mais confusão aos que dependiam delas.

Felizmente, contrariando previsões catastróficas, o desvio bem sinalizado pela Polícia Rodoviária Federal, serviu ao desafio de compensar razoavelmente a deficiência da BR 101.

Cabe às autoridades locais e federais a adoção de medidas preventivas às ocorrências dessa natureza, evitando-se o empirismo que domina a atuação dos agentes públicos e a disseminação de idéias alarmistas que comprometem o espírito colaborativo esperado para situações como essa.

12 dezembro 2008

TRAGÉDIA E AVANÇO

A tragédia climática que atinge as populações de parte dos estados de Santa Catarina principalmente, Rio de Janeiro e Espírito Santo, tornou-se a grande urgência nacional.

As regiões afetadas pelas chuvas excessivas, são exemplares de situações de degradação do solo combinadas com a ocupação urbana desordenada.

Estas situações transformam-se em geradores potenciais dos desmoronamentos de terra, transbordamento de rios e destruição generalizada que foram vistos nas ultimas semanas.

Eventos agudos de sofrimento das populações atingidas pelas chuvas podem ser recordados, em meados dos anos 80 – na cidade de Blumenau - e na serra fluminense em 2001.

A ausência de uma intervenção sólida dos poderes municipais na organização do espaço urbano, especialmente nas questões que envolvem saneamento e habitação, adiam as soluções e prolongam o sentimento de apreensão coletiva.

Nessas horas, desponta entre nós a solidariedade com as pessoas que foram arrancadas de suas casas, destituídas de seu patrimônio para preservarem a própria vida.

Uma mobilização ampla, da qual podemos nos orgulhar, como brasileiros.

É necessário avançar.

Precisamos incluir na agenda nacional, mais do que uma energia emocional positiva, que demonstra sensibilidade com as tragédias imediatas.

Trata-se de acumular experiências de gestão, conhecimento atualizado e planejamento de médio e longo prazo que contribuam para a modificação do modelo de urbanização concentrada.

Qualidade de vida não deveria estar relacionada apenas aos bairros e condomínios planejados para as classes mais favorecidas ou às regiões turísticas para a época de férias.

Existem pelo mundo afora, e mesmo no Brasil, exemplos de cidades estabelecidas com padrões superiores ao que é generalizado no país.

O momento é propício para a formação de uma nova concepção de vida urbana, onde os parâmetros de bem estar e sustentabilidade sejam valores coletivos e permanentes.

02 novembro 2008

DECLINIO AMERICANO


A posição de liderança que os americanos ocupavam no mundo contemporâneo vem sendo abalada continuamente, por acontecimentos que não podem ser refutados historicamente.

Desde a queda das economias fechadas e controladas pelo poder soviético, nos anos noventa, o mapa do capitalismo começou a ser significativamente redesenhado.

Rússia, Índia, e principalmente, a China, avançaram tecnologicamente, exploraram positivamente seu potencial de consumo, e tornaram-se referências mundiais em crescimento consistente.

Os europeus seguiram seu cronograma federativo, criaram uma moeda forte e reforçaram sua solidez institucional, elevando a importância do bloco no mercado mundial.

Dependentes do petróleo do Oriente Médio, os americanos se envolveram nas últimas décadas, em desgastantes conflitos, expondo seus homens ao fanatismo bélico dos iranianos, iraquianos e afegãos, contrariando a opinião pública interna e externa.

Para encerrar essa trajetória negativa para os negócios nos Estados Unidos, surge a crise bancária, resultado de uma seqüência de decisões malsucedidas, que fragilizaram seu sistema econômico.

A dificuldade em enfrentar os sintomas da perda de lastro das operações originadas dos empréstimos hipotecários, teve como conseqüência a vulnerabilidade de todas as instituições financeiras que de alguma forma atrelaram seus ativos a esses papéis.

O resultado é uma crise global de confiança na sustentabilidade do sistema financeiro mundial, desencadeada pela maior potência econômica, vista outrora como exemplo de eficiência e prosperidade.

14 outubro 2008

CREDIBILIDADE

A crise financeira cujos efeitos alastram-se pelo mundo inteiro, proporciona uma substanciosa reflexão sobre o papel da credibilidade em economia.

Credibilidade, como o nome diz, indica o status de quem, por trajetória consolidada ou reputação reconhecida, mereça crédito, seja nas suas ações ou afirmações, seja nos compromissos assumidos.

Embalados por um otimismo sobre a economia mundial dos últimos anos, acompanhado pela alta liquidez do seu sistema financeiro, os americanos desprezaram a receita insistentemente prescrita aos países em desenvolvimento, e fermentaram uma massa de créditos hipotecários de grande vulnerabilidade.

Ausência do Estado, aquecimento dos preços dos imóveis, falta de instrumentos de análise de crédito e altas nas taxas de juros, são os ingredientes de uma malsucedida expansão das carteiras de empréstimos imobiliários.

Expoentes do capitalismo mundial, os americanos já tinham espalhado pelo mundo todo papéis nascidos desse mercado vulnerável, pulverizando os reflexos de uma crise que se tornou global.

O gigante americano, com seu poder de influência relativizado após a abertura econômica de países como a China e a Rússia, com a ascensão dos emergentes e a solidez do Euro, ainda é capaz de exportar tensões de natureza econômica pelo planeta, antes voltadas aos assuntos geopolíticos.

As conseqüências da desvalorização dos imóveis financiados, e em seqüência das carteiras hipotecárias, geraram ambiente desfavorável que atingiu o sistema o financeiro mundial, contaminado pela dilapidação dos ativos lastreados por essas operações.

Governos do mundo inteiro, a começar pelos Estados Unidos, aceleram ações de recomposição do patrimônio dos bancos afetados pela crise, buscando recuperar em curto prazo sua saúde financeira, numa mensagem positiva aos mercados.

Mais do que recursos monetários, colocados a disposição tempestivamente pelas autoridades nacionais, trata-se de salvar a crença na lógica das premissas básicas de funcionamento dos bancos, reconquistando a credibilidade de todo o sistema financeiro.

02 setembro 2008

DECISÕES NACIONAIS

A recente participação do Supremo Tribunal Federal nos debates mais emergentes na sociedade é um sinal promissor para o avanço ético e cultural da população.

O poder judiciário, ao enfrentar as questões nacionais com o exercício nobre das suas capacidades intelectuais e sob a aura da legítima credibilidade da defesa constitucional, emana uma mensagem positiva para a convivência social.

Temas polêmicos estão sendo expostos à exaustão, mesmo quando chocam os costumes tradicionais, transgridem as conveniências políticas e questionam os dogmas religiosos.

A instância judicial máxima no país referendou o uso de células tronco nas pesquisas científicas, condenou o nepotismo político e a infidelidade partidária, além de defender por diversos meios a dignidade do cidadão.

Num país em que legislar é ato carregado de interesses localizados que não vislumbram o avanço da nacionalidade, destacam-se a soberania das decisões judiciais plenas de significado para o desenvolvimento permanente da democracia.

08 agosto 2008

CONTRADIÇÕES E SUBDESENVOLVIMENTO

O aperfeiçoamento da convivência social no Brasil requer o enfrentamento de seus vícios históricos, de suas mazelas autoritárias, de seus estereótipos sociais.

Há pouco, comemoramos os quinhentos anos da presença européia na “Terra do Pau Brasil”, quando se concebeu a possibilidade de transformar essa vastidão de riquezas naturais habitadas pelos índios em uma província modelada pela inspiração colonizadora do velho mundo.

Passado meio século, gostaríamos de poder contabilizar reais avanços civilizatórios, que enchessem de orgulho os descendentes de nossos “descobridores”, para podermos freqüentar com altivez o clube dos países desenvolvidos.

Em meio a quase uma década de tímido crescimento econômico, nosso país amarga ainda a desonra de enormes contradições internas, cujos sintomas nos remetem ao primitivo, ao selvagem, ao truculento.

Alguns estados e muitos municípios ainda são governados como capitanias hereditárias, sujeitando cidadãos à arrogância e ao descaso com o bem comum.

A educação formal derrapa na escassez da qualidade e no despreparo dos abnegados professores, que idealizam para ensinar e sofrem para sobreviver.

As iniciativas públicas de transporte urbano são preparadas para o desempenho da indústria automobilística e não para o conforto e mobilidade das pessoas.

E as prisões, destino dos atingidos pelas políticas de segurança, são amontoados de humanos à espera de oportunidades de fuga ou entregues à violência dos “chefes” de gangues organizadas.

A salvo dessas condições catastróficas, membros das elites políticas e financeiras gozam de melhor sorte, quando penalizados por todo tipo de falcatruas e assaltos aos cofres públicos.

Instituições governamentais e poderes constituídos defendem a honradez e a integridade de seus pares, que por “deslizes” morais são submetidos a força policial engendrada desde sempre para punir os mais humildes.

O estarrecimento com tratamentos normalmente adotados nas prisões dos homens comuns e a interminável munição jurídica que os livram do cárcere, delatam a face classista da segurança pública.

Alheios a ojeriza popular, autoridades distantes do mundo real fazem valer a proteção do “status quo”, em prova de indisfarçável conivência e omissão.

A categoria de país subdesenvolvido não será superada apenas pelas estatísticas frias dos resultados comerciais, mas principalmente por condições mais evoluídas de igualdade social e convivência ética.

É preciso um enorme esforço humanista, uma exemplar afirmação das condutas positivas, para que num futuro não muito distante possamos harmonizar o crescimento material e o desenvolvimento de uma identidade brasileira respeitada.

08 julho 2008

A REDE E O HOMEM

A recente pane no funcionamento da Internet traz à luz uma diversidade de indagações sobre o presente e o futuro das atividades humanas.

Há não menos que quinze anos, sobrevivíamos muitos, sem a compulsiva presença dos atuais meios tecnológicos de comunicação mais populares: internet e telefonia celular.

O nostálgico contato humano das corporações de comércio e serviços foi substituído pelas “plataformas interativas” e seus atendentes anônimos.

O celular não aproximou as pessoas, mas possibilitou uma comunicação instantânea e ampliada em todas as direções.

A rede mundial de computadores – popular “internet” – tornou-se o oxigênio indispensável para uma geração que joga, brinca, fala e entende-se neste novo universo.

Serviços públicos, bancos, pessoas e organizações dependem dessa via imaginária para andar em frente e realizar seus propósitos.

Difícil imaginar o que foi construído no passado sem os benefícios e imediatismos dos sistemas contemporâneos.

Somente se explicam tais feitos pela capacidade de realização do homem, que não desanimando frente às dificuldades, impôs-se a construção do progresso.

O momento é de reflexão sobre a imperativa atitude humana sobre o modo de convivência e desenvolvimento que se quer construir.

Alerta para a indelegável responsabilidade individual que permeia todas as relações e negócios, independentemente das suas generalizações tecnológicas.

Em qualquer tempo, é o homem, através das suas decisões e ações, que forja o futuro da sociedade.

12 março 2008

COLAPSO VIÁRIO

O colapso eminente do sistema viário de São Paulo simboliza o que existe de mais perverso em matéria de deterioração da mobilidade urbana e o problema precisa ser enfrentado com competência técnica e gestão governamental eficaz.

A lógica da metrópole que emana poder econômico, que concentra aglomerados populacionais e que respira agressividade ao meio ambiente sucumbe a cada dia.

Os números alarmantes dos rotineiros congestionamentos a que estão expostos mentes e pulmões de milhares de pessoas soam como um hino diário à insuficiência da gestão pública diante da grandeza das dificuldades que precisam ser superadas.

Teóricos de soluções rápidas não são bem-vindos ao debate urgente que toda a coletividade precisa fazer e que deve incluir não só a imolação contundente das responsabilidades alheias, mas também a coragem das nossas contribuições generosas.

Discrepâncias de fluxos mal estruturados que privilegiam os veículos individuais e atormentam os usuários dos meios de transporte coletivos divergem das intenções bem formuladas dos planejadores governamentais em seus programas quadrienais.

Hábitos individualistas de locomoção são estimulados por um crescimento da oferta sem precedentes na indústria automobilística, que incorporam centenas de novos veículos ao espaço metropolitano diariamente.

O crescimento desordenado das habitações irregulares e precárias, alimentado por um êxodo persistente das regiões menos favorecidas do país nos últimos quarenta anos acentuam a complexidade dos diagnósticos necessários.

A pior atitude no momento é a da introspecção descompromissada. Tão importante quanto opinar e participar de decisões abrangentes num contexto de variáveis tão complexas é a decisão de combater a violência das ruas contaminadas pela ambição indiferente.

É preciso ceder um espaço na via para quem atravessa, um banco confortável para um carona, um tempo de descanso para a cidade que não para.

A alternativa possível não está em nossas mãos. O caos do presente ruma para o extremo inevitável: o espaço finito em transbordamento paralisante.

Ainda é possível evitar. Façamos a nossa parte.

A FORÇA DO POVO