14 outubro 2008

CREDIBILIDADE

A crise financeira cujos efeitos alastram-se pelo mundo inteiro, proporciona uma substanciosa reflexão sobre o papel da credibilidade em economia.

Credibilidade, como o nome diz, indica o status de quem, por trajetória consolidada ou reputação reconhecida, mereça crédito, seja nas suas ações ou afirmações, seja nos compromissos assumidos.

Embalados por um otimismo sobre a economia mundial dos últimos anos, acompanhado pela alta liquidez do seu sistema financeiro, os americanos desprezaram a receita insistentemente prescrita aos países em desenvolvimento, e fermentaram uma massa de créditos hipotecários de grande vulnerabilidade.

Ausência do Estado, aquecimento dos preços dos imóveis, falta de instrumentos de análise de crédito e altas nas taxas de juros, são os ingredientes de uma malsucedida expansão das carteiras de empréstimos imobiliários.

Expoentes do capitalismo mundial, os americanos já tinham espalhado pelo mundo todo papéis nascidos desse mercado vulnerável, pulverizando os reflexos de uma crise que se tornou global.

O gigante americano, com seu poder de influência relativizado após a abertura econômica de países como a China e a Rússia, com a ascensão dos emergentes e a solidez do Euro, ainda é capaz de exportar tensões de natureza econômica pelo planeta, antes voltadas aos assuntos geopolíticos.

As conseqüências da desvalorização dos imóveis financiados, e em seqüência das carteiras hipotecárias, geraram ambiente desfavorável que atingiu o sistema o financeiro mundial, contaminado pela dilapidação dos ativos lastreados por essas operações.

Governos do mundo inteiro, a começar pelos Estados Unidos, aceleram ações de recomposição do patrimônio dos bancos afetados pela crise, buscando recuperar em curto prazo sua saúde financeira, numa mensagem positiva aos mercados.

Mais do que recursos monetários, colocados a disposição tempestivamente pelas autoridades nacionais, trata-se de salvar a crença na lógica das premissas básicas de funcionamento dos bancos, reconquistando a credibilidade de todo o sistema financeiro.

02 setembro 2008

DECISÕES NACIONAIS

A recente participação do Supremo Tribunal Federal nos debates mais emergentes na sociedade é um sinal promissor para o avanço ético e cultural da população.

O poder judiciário, ao enfrentar as questões nacionais com o exercício nobre das suas capacidades intelectuais e sob a aura da legítima credibilidade da defesa constitucional, emana uma mensagem positiva para a convivência social.

Temas polêmicos estão sendo expostos à exaustão, mesmo quando chocam os costumes tradicionais, transgridem as conveniências políticas e questionam os dogmas religiosos.

A instância judicial máxima no país referendou o uso de células tronco nas pesquisas científicas, condenou o nepotismo político e a infidelidade partidária, além de defender por diversos meios a dignidade do cidadão.

Num país em que legislar é ato carregado de interesses localizados que não vislumbram o avanço da nacionalidade, destacam-se a soberania das decisões judiciais plenas de significado para o desenvolvimento permanente da democracia.

08 agosto 2008

CONTRADIÇÕES E SUBDESENVOLVIMENTO

O aperfeiçoamento da convivência social no Brasil requer o enfrentamento de seus vícios históricos, de suas mazelas autoritárias, de seus estereótipos sociais.

Há pouco, comemoramos os quinhentos anos da presença européia na “Terra do Pau Brasil”, quando se concebeu a possibilidade de transformar essa vastidão de riquezas naturais habitadas pelos índios em uma província modelada pela inspiração colonizadora do velho mundo.

Passado meio século, gostaríamos de poder contabilizar reais avanços civilizatórios, que enchessem de orgulho os descendentes de nossos “descobridores”, para podermos freqüentar com altivez o clube dos países desenvolvidos.

Em meio a quase uma década de tímido crescimento econômico, nosso país amarga ainda a desonra de enormes contradições internas, cujos sintomas nos remetem ao primitivo, ao selvagem, ao truculento.

Alguns estados e muitos municípios ainda são governados como capitanias hereditárias, sujeitando cidadãos à arrogância e ao descaso com o bem comum.

A educação formal derrapa na escassez da qualidade e no despreparo dos abnegados professores, que idealizam para ensinar e sofrem para sobreviver.

As iniciativas públicas de transporte urbano são preparadas para o desempenho da indústria automobilística e não para o conforto e mobilidade das pessoas.

E as prisões, destino dos atingidos pelas políticas de segurança, são amontoados de humanos à espera de oportunidades de fuga ou entregues à violência dos “chefes” de gangues organizadas.

A salvo dessas condições catastróficas, membros das elites políticas e financeiras gozam de melhor sorte, quando penalizados por todo tipo de falcatruas e assaltos aos cofres públicos.

Instituições governamentais e poderes constituídos defendem a honradez e a integridade de seus pares, que por “deslizes” morais são submetidos a força policial engendrada desde sempre para punir os mais humildes.

O estarrecimento com tratamentos normalmente adotados nas prisões dos homens comuns e a interminável munição jurídica que os livram do cárcere, delatam a face classista da segurança pública.

Alheios a ojeriza popular, autoridades distantes do mundo real fazem valer a proteção do “status quo”, em prova de indisfarçável conivência e omissão.

A categoria de país subdesenvolvido não será superada apenas pelas estatísticas frias dos resultados comerciais, mas principalmente por condições mais evoluídas de igualdade social e convivência ética.

É preciso um enorme esforço humanista, uma exemplar afirmação das condutas positivas, para que num futuro não muito distante possamos harmonizar o crescimento material e o desenvolvimento de uma identidade brasileira respeitada.

08 julho 2008

A REDE E O HOMEM

A recente pane no funcionamento da Internet traz à luz uma diversidade de indagações sobre o presente e o futuro das atividades humanas.

Há não menos que quinze anos, sobrevivíamos muitos, sem a compulsiva presença dos atuais meios tecnológicos de comunicação mais populares: internet e telefonia celular.

O nostálgico contato humano das corporações de comércio e serviços foi substituído pelas “plataformas interativas” e seus atendentes anônimos.

O celular não aproximou as pessoas, mas possibilitou uma comunicação instantânea e ampliada em todas as direções.

A rede mundial de computadores – popular “internet” – tornou-se o oxigênio indispensável para uma geração que joga, brinca, fala e entende-se neste novo universo.

Serviços públicos, bancos, pessoas e organizações dependem dessa via imaginária para andar em frente e realizar seus propósitos.

Difícil imaginar o que foi construído no passado sem os benefícios e imediatismos dos sistemas contemporâneos.

Somente se explicam tais feitos pela capacidade de realização do homem, que não desanimando frente às dificuldades, impôs-se a construção do progresso.

O momento é de reflexão sobre a imperativa atitude humana sobre o modo de convivência e desenvolvimento que se quer construir.

Alerta para a indelegável responsabilidade individual que permeia todas as relações e negócios, independentemente das suas generalizações tecnológicas.

Em qualquer tempo, é o homem, através das suas decisões e ações, que forja o futuro da sociedade.

12 março 2008

COLAPSO VIÁRIO

O colapso eminente do sistema viário de São Paulo simboliza o que existe de mais perverso em matéria de deterioração da mobilidade urbana e o problema precisa ser enfrentado com competência técnica e gestão governamental eficaz.

A lógica da metrópole que emana poder econômico, que concentra aglomerados populacionais e que respira agressividade ao meio ambiente sucumbe a cada dia.

Os números alarmantes dos rotineiros congestionamentos a que estão expostos mentes e pulmões de milhares de pessoas soam como um hino diário à insuficiência da gestão pública diante da grandeza das dificuldades que precisam ser superadas.

Teóricos de soluções rápidas não são bem-vindos ao debate urgente que toda a coletividade precisa fazer e que deve incluir não só a imolação contundente das responsabilidades alheias, mas também a coragem das nossas contribuições generosas.

Discrepâncias de fluxos mal estruturados que privilegiam os veículos individuais e atormentam os usuários dos meios de transporte coletivos divergem das intenções bem formuladas dos planejadores governamentais em seus programas quadrienais.

Hábitos individualistas de locomoção são estimulados por um crescimento da oferta sem precedentes na indústria automobilística, que incorporam centenas de novos veículos ao espaço metropolitano diariamente.

O crescimento desordenado das habitações irregulares e precárias, alimentado por um êxodo persistente das regiões menos favorecidas do país nos últimos quarenta anos acentuam a complexidade dos diagnósticos necessários.

A pior atitude no momento é a da introspecção descompromissada. Tão importante quanto opinar e participar de decisões abrangentes num contexto de variáveis tão complexas é a decisão de combater a violência das ruas contaminadas pela ambição indiferente.

É preciso ceder um espaço na via para quem atravessa, um banco confortável para um carona, um tempo de descanso para a cidade que não para.

A alternativa possível não está em nossas mãos. O caos do presente ruma para o extremo inevitável: o espaço finito em transbordamento paralisante.

Ainda é possível evitar. Façamos a nossa parte.

04 fevereiro 2008

ECONOMIA E CARNAVAL

Ainda não estão totalmente esclarecidos os desdobramentos da crise econômica que atinge os Estados Unidos e repercute em todo o mundo, inclusive o Brasil.

A recessão da secular grande potência mundial causa desconforto na sua população acostumada à absoluta prosperidade nos últimos sessenta ou setenta anos.

Da vulnerabilidade das carteiras hipotecárias à elevação dos índices inflacionários, os efeitos da crise acompanham diminuição do consumo e a conseqüente queda nas importações mundiais.

Anestesiados pela alegria carnavalesca, os brasileiros contam com a eficiência dos membros da área econômica do governo, para que protejam a solidez e credibilidade conquistadas nos últimos anos, à custa de outras prioridades sociais.

A continuidade do crescimento econômico deve ser posta à prova pela primeira vez em um momento global desfavorável, motivo pelo qual os mercados acionários esboçam reações de justificada apreensão.

Embora não dependa das importações americanas, o Brasil sofrerá os efeitos colaterais das restrições ao consumo nos Estados Unidos, que atingirão o mundo inteiro graças ao significativo volume que alimenta os mercados mundiais.

O momento é de concentração nas potencialidades do nosso território, ritmo e harmonia na nossa capacidade de produzir com escassa infra-estrutura, e sensibilidade da comissão de frente da equipe econômica para percorrer o melhor caminho em direção à uma nova fase de estabilidade.

21 janeiro 2008

NOVA CIDADE

A qualidade de vida na cidade está diretamente relacionada à quantidade de vidas humanas que usufruem e interagem nessa mesma cidade. É inescapável a qualquer debate sobre o urbano, o fenômeno secular da concentração populacional.

Recente pesquisa da ONU anuncia que em 2007, a população urbana ultrapassou a metade do universo populacional mundial, ou seja, pela primeira vez, a população urbana superou a população rural.

Para nós, habitantes da América Latina, o cenário é ainda mais expressivo: 75% da população concentram-se nos grandes centros urbanos.

Esses números, por si só, constituem um diagnóstico negativo para o avanço do desenvolvimento humano e da prosperidade coletiva.

A convivência social que se estabelece nas grandes cidades acumula ingredientes de primitivismo e selvageria que não acompanham as inovações tecnológicas e as descobertas científicas do nosso tempo.

O anonimato das multidões sugere a desatenção às regras de conduta mais elementares. As vias e espaços congestionados, a ocupação intensiva do solo e a escassez de serviços públicos indispensáveis para grande parte da população alimentam a cultura das diferenças de classe e a profusão da violência e da contravenção.

A agressão contínua ao meio ambiente em seus diversos elementos necessários a sobrevivência no planeta afeta a saúde dos nossos dias e compromete o habitat das próximas gerações.

O planejamento urbano sério é uma necessidade urgente que transcende a atuação dos políticos governantes em suas carreiras ensimesmadas, e requer administradores públicos que compreendam o papel histórico e antropológico de suas intervenções na vida coletiva.

Exemplos isolados de participação popular nas decisões políticas e de organização estratégica do espaço público sempre fortalecem a idéia de que é possível tornar as metrópoles mais aconchegantes e humanas.

Constatar que Bogotá figura entre as cidades que conseguiram fazer com que a inclusão social se tornasse uma realidade mais forte que a violência da indústria da droga, que Nova York tenha se transformado em exemplo de cidade segura, que Porto Alegre tenha mostrado sua democracia participativa ao mundo inteiro através do Fórum Social Mundial, e que Petrópolis tenha passado por um projeto de reurbanização que valorizou os pedestres frente ao uso excessivo do carro particular, são alentos para quem procura fortalecer o equilíbrio da vida em sociedade.

Uma nova cidade, um novo mundo é possível. O caos urbano não é inevitável. A formação de uma civilidade urbana mais elevada não é uma fantasia. Construir o futuro é uma missão contemporânea, indelegável e decisiva. Para todos nós, que já partimos da experiência de viver o presente, sobreviventes do planeta azul.

26 dezembro 2007

ENTUSIASMO OPOSICIONISTA

A derrota do governo no senado, que resultou na impossibilidade de renovar a vigência da CPMF, foi o grande assunto nacional das últimas semanas.

O episódio revelou enorme fragilidade do governo, quando se trata de obter aprovação dos parlamentares para ações de governo consideradas imprescindíveis para o sucesso das suas políticas.

É positiva a constatação de que os poderes exercem de forma equilibrada suas atribuições, eliminando a hipótese de que os governantes imponham suas decisões sem contraditório.

Entretanto, a percepção legítima da sociedade é que o governo foi derrotado para que tenha dificuldades em obter recursos para operar os seus programas, com o objetivo de desgastá-lo politicamente.

O modus operandi da ação oposicionista, contando com o poder de articulação e convencimento do Ex-presidente de República, acompanhado de declarações excessivamente entusiasmadas após o resultado da votação, auto-denunciaram a falta de rigor técnico e interesse público ali empregados.

A manutenção ou não da CPMF – um imposto de fácil cobrança, de massa tributária abrangente e de difícil sonegação – deveria ser discutida em paralelo a construção de um novo modelo tributário, que desonerasse produção e emprego, e tivesse a ousadia de descomplicar o arcabouço normativo do modelo atual.

Explicações desencontradas dos líderes governistas ora apontam conseqüências catastróficas da repentina diminuição de recursos, como corte de investimentos, veto aos aumentos de salário do funcionalismo e aumento dos juros para captação de reais pelo tesouro, ora minimizam os efeitos, desqualificando as comemorações dos adversários.

Natural que o governo apresse-se em acalmar os mercados investidores, desprezando qualquer sugestão de vulnerabilidade das contas públicas, procurando manter os elevados níveis de confiança internacional que foram construídos nos últimos anos.

Além disso, os bilhões não arrecadados futuramente, de alguma forma estarão em grande parte, disponíveis para o consumo, gerando novos empregos e impostos.

A lamentar, a constatação de que as contendas partidárias e os interesses particulares ditam o rumo das decisões mais importantes do país, e que a representação parlamentar da sociedade careça de atitude comprometida com o presente e o futuro do país.

03 novembro 2007

EXISTÊNCIA URBANA

Os carros trafegam apressados, como se alguma velocidade a mais fosse fazer diferença em meio aos obstáculos que ainda teriam que ser superados para a chegada ao destino: o local de trabalho desses entusiasmados motoristas, ansiosos por ultrapassar seus concorrentes, seus pares nessa corrida urbana mal organizada e sem podium no final.

Os movimentos são bruscos, as sinalizações ignoradas, a educação coletiva evolui de modo bem mais lento, sufocada pelo desejo de vingança dos ultrapassados, pela ansiedade dos que se arrogam vencedores desse trágico esporte.

No alto das laterais das vias, já não se lêem mais as placas de publicidades coloridas de outrora, desapareceram os painéis luminosos, ficaram as paredes dos prédios, escuras, expostas, pixações à mostra...

Nenhum vendaval ou acidente da natureza, senão a criatividade dos poderes públicos, ávidos em implantar mudanças nas paisagens, em marcar presença na memória das pessoas, em desfazer o que está feito para reinventar o que ficará por fazer.

Ao largo das avenidas, concentrados nos semáforos, ocupantes de um espaço desvalorizado, sem lugar para engendrar arquiteturas. Feito um pit stop de fórmula um, aproximam-se dos carros, vendem, pedem, limpam, fazem malabarismos, assustam, assaltam, sob olhares ansiosos dos pilotos, digo, motoristas.

Reaparece a luz verde, retornam à esquina, desviando das arrancadas instantâneas, desafiando perigos repetidos a cada pausa de trinta segundos.

No interior dos “cockpit” muitos permanecem alheios à sorte de outrem, que apostam sua sobrevivência nessa hostil intermitência de tráfego. Outros se penalizam, mas seguem adiante, conformando-se com a miséria, em angustioso desafio à indiferença generalizada.

O convívio com essa realidade acompanha o trajeto por alguns segundos. Reflexões superficiais nos fazem despertar a humanidade interior escondida. Em instantes, a consciência das aspirações imediatas nos conduz de volta a normalidade individualista.

Também a postos para a largada estão os ônibus, quase sempre lotados de esforçados combatentes de um esporte radicalmente afeito às metrópoles: desembarcar ileso e íntegro no destino programado.

As regras para os ônibus ora são privilegiadas com faixas exclusivas, ora são dificultadas por um sistema que beneficia o automóvel particular. Os motoristas expostos a enormes jornadas de trabalho enfrentam com vigor as barreiras inumeráveis de uma rotina de passageiros, tráfego intenso, dias que não terminam nunca.

Não ficam atrás os trens metropolitanos e os metrôs, escondidos, sob o solo, ou segregados por trilhos e muros, em rotas próprias, entupidos, superlotados, em ofensiva situação de desconforto.

Os dias já nascem cobertos de neblina, ou de densa poluição. O sol esconde-se na espessura de nuvens intrusas ou de gases insistentes em atingir a fragilidade das nossas vias, as respiratórias, é claro.

Em lugares diferentes percebemos que o Sol não nasce para todos. Ele desafia os prognósticos ambientais e descobre algumas fendas para enviar seus raios desfigurados, mas comemorados alegremente por quem já não os vê com freqüência.

Tem gente que gosta dessa sombria atmosfera, e se realiza no vai e vem das pessoas e dos veículos, do sol e da chuva, do dia e da noite, da neblina e da fumaça.

Tem gente que protesta, que desafia, que se ilude com as mudanças, que se revigora com a esperança, que se distingue da maioria.

Muitos seguem a multidão, brincam quando podem, pensam quando querem, sentem quando calam.

O dia promete ser longo, tarefas, problemas, clientes, mais tarefas, mais problemas, mais clientes...

Os indivíduos vão se encaixando nas turmas, reunindo grupos, formando equipes, dividindo aspirações coletivas, somando esforços pessoais, segregando ambientes familiares, inventando o seu novo mundo do dia presente.

O trabalho parece ser a razão da existência, ou o motor das energias humanas colocadas em ação, na soma dos indivíduos que formam a sociedade.

Mas cada um não percebe o quanto sua contribuição para o todo foi importante.

Também não percebemos que aquele “pit stop” das esquinas da metrópole reflete o nosso isolamento das verdades indigestas.

Assimilamos as nossas dificuldades cotidianas e revelamos nossa tolerância ao abismo que separa realidades inconfundívelmente avessas.

Seguimos para um futuro desejado e acreditamos em amanhãs melhores, sem a indispensável construção do caminho que os tornarão possíveis.

Invertemos hábitos sociáveis e simples para alimentarmos a linha divisória que nos protege da miséria assustadora dos que labutam por mínima e hostil sobrevivência.

Inventamos uma cidade alheia às suas patologias urbanas, indiferente à agressividade estética das periferias, fortificada por suas intransponíveis linguagens para os que não falam o idioma culto dos afortunados.

No fim do dia, repete-se o caos invertido, o regresso cansativo dos caminhos congestionados e dos veículos desgovernados.

Voltamos para as futilidades domésticas, assistimos aos telejornais que repetem as mesmas cenas de sempre, recheadas de cumplicidade midiática, de sensacionalismos mórbidos.

Habituamos a incorporar sensações de personagens irreais, assumimos como nossos os seus desejos e pontos de vistas, e desligamos a tela da vida em troca da fantasia extasiada das belezas de existências artificiais.

E nos revigoramos sempre para enfrentar a caminhada persistente em busca das nossas nem sempre reveladas aspirações pessoais.

Seguimos com nossas certezas e forças, desafiando experiências adversas e superando barreiras de difícil ultrapassagem.

Nossa consciência pavimenta uma longa estrada, que vai sendo desenhada pelas adversidades, pelas experiências, pelas pessoas que nos acompanham, pelos que nos ensinam, pelos que nos atrapalham...

Viver é para todos. Crescer é para os que querem marcar a existência por sua própria personalidade, por uma contribuição a essa universal singularidade sobre o que é ser humano.

E a minha humanidade é parte de toda a humanidade. Nem mais, nem menos.

28 outubro 2007

MUNDO CORPORATIVO


O mundo corporativo é uma criação da sociedade moderna.

Externo ao mundo real, o mundo corporativo tem leis próprias que não são escritas, valores que não estão explícitos, lugares que não se conhece.

No mundo corporativo as pessoas estão expostas a reações surpreendentes, a ilações desconectadas com a realidade dos fatos, a emoções atípicas para despojamentos raros.

Bondades são obscurecidas pelas entranhas burocráticas, crueldades são revestidas de “razões estratégicas”, relacionamentos são instrumentalizados para ambições mesquinhas.

Adultos carecem de maturidade na convivência com superiores, que se embriagam na acidez de solitárias decisões.

Concepções e princípios são superados pela ansiedade monetária e pela imediaticidade das quantidades.

Integridade e humanidade padecem sob a rigidez das prioridades e sob o império da impessoalidade.

Sobreviver no mundo corporativo requer força pessoal abundante, que se exprime na liberdade de pensar, na iniciativa de fazer e na nobreza de transigir.

São fortes os que deixam prevalecer sua condição humana, desafiando a sedução dos aplausos e manipulações das aparências.

E constroem para si e para os que os rodeiam uma nova atmosfera de convivência ética que por si só inspira resultados sustentáveis.

A possibilidade da existência no mundo real e no mundo corporativo, abolindo os papéis superficiais e revelando a personalidade íntegra, é um caminho para o fim das esquizofrenias contemporâneas, que transformam os ambientes de trabalho em pesados fardos.

Então esse mundo paralelo estará superado por uma realidade promissora em que ética, humanidade e desenvolvimento econômico prosperarão unidos.

08 outubro 2007

PRÁTICAS E ANTÍDOTOS

Multiplicam-se as denúncias das revistas semanais sobre as irregularidades cometidas pelos personagens mais influentes da cena política do país.

Na obsessão desmedida pelo poder, a ética e a responsabilidade social são despudoradamente relegadas a segundo plano, dando vez ao exercício da vingança pessoal, do loteamento partidário dos cargos públicos, da utilização privilegiada da máquina estatal, da negação da honradez republicana.

A prática corrente da distribuição de funções de confiança em troca de posicionamento favorável nas votações legislativas desvirtua as atribuições do Congresso, e instala um mercado sombrio de decisões institucionais alheias à sociedade.

O péssimo hábito de se minimizar os crimes de natureza eleitoral sob o pretexto da subjetividade da atividade política desacreditam as agremiações e seus representantes, desestimulando o exercício dos direitos democráticos.

Não deixa de ser emblemático que dois políticos acima das suspeitas convencionais tenham sido afastados por seus pares da Comissão de Constituição e Justiça quando realizavam sua tarefa com dedicação inarredável ao caminho da verdade e da legalidade, independentemente das opções partidárias.

O episódio estampa as práticas vergonhosas - exceções à parte - que corroem o sistema político vigente transformando-o numa feira de negócios inescrupulosos e descompromissados com os interesses da população.

Rompendo o ciclo de percepções negativas, decisão recente do Supremo Tribunal Federal consolidando a fidelidade partidária aponta na direção de um melhor aproveitamento do voto do eleitor.

Longe de significar o ápice das expectativas de uma ampla reforma política, é uma notícia promissora, levando-se em conta os costumes locais, em que a ideologia partidária desaparece diante dos interesses pessoais e corporativos.

O voto é instrumento democrático importante, mas precisa ser acompanhado de significativa transformação das relações sociais, em que os valores humanos permanentes se sobreponham ao lucro fácil, às vantagens imediatas, aos comportamentos que alimentam as desigualdades.

O antídoto para tamanho desperdício institucional é o senso de responsabilidade social que deve haver em cada um de nós, no exemplo das atitudes cotidianas, na formação das novas gerações, no compromisso com a comunidade, com o país e com o meio ambiente.

24 setembro 2007

ATENDER E CONVIVER


As pessoas que solicitam nossa atenção no dia a dia são portadoras de uma quantidade de desejos, relações pessoais, aspirações e concepções.

Cada um de nós, ora está no seu horário de trabalho atendendo a um cliente, ora está numa repartição, numa loja ou qualquer outro estabelecimento como o cliente, o usuário, o próximo da fila.

Quando estamos do lado de lá pensamos nas diversas razões que transformaram nosso tempo em refém de terceiros, alheios aos nossos problemas e solicitações.

Gostaríamos que nos apresentassem algo mais do que um “mais alguma coisa?”, que não tem outro significado senão o de encerrar o contato para dar lugar ao cliente seguinte.

Se vamos frequentemente aos mesmos lugares, e neles os problemas se repetem, porque não são resolvidos? Será que ninguém pensou nisso, ou deveríamos reclamar formalmente?

Do nosso ponto de vista, o que temos para resolver é o mais urgente, o mais importante. Ou alguém que retira uma senha ou entra numa fila pergunta se os outros que ficaram para trás tem necessidades prioritárias?

Ainda assim esperamos ser tratados com distinção única, porque não somos iguais ao outros, somos especiais, e o nosso atendimento requer uma explicação singular, adequada para o nosso caso.

Acreditamos naquilo que experimentamos com sucesso, e voltamos com convicção, perdoando detalhes negativos, se o principal estiver satisfeito.

Por essas razões, e para não criarmos falsas expectativas, vamos experimentar isso do lado de cá.

Quando atendemos os outros empenhamos nossos esforços nisso, ou colocamos diversos obstáculos que transmitem desprezo e indiferença?

Identificamos as pessoas como elas são, como elas se apresentam, ou as tratamos como parte de uma fila, de um público?

Interpretamos as críticas como mensagem de quem deseja nossa qualificação ou criamos resistência preconceituosa?

Concluímos nosso atendimento com expressões que reafirmam o que ficou acordado e nosso agradecimento por nos terem escolhido?

Trabalhar para pessoas requer talento e humildade, força e generosidade, energia e criatividade. É a conseqüência natural de sermos humanos, e vivermos encontrando pessoas todos os dias, todas as horas, o tempo todo.

Alguém imagina ser possível viver de outra forma?

25 agosto 2007

OS OUTROS


Uma das aspirações coletivas mais pronunciadas dos últimos tempos é a chamada “busca dos culpados” e a “punição dos responsáveis”.

Excluímos a nós mesmos, e concluímos que “os outros” são os potenciais protagonistas das mazelas, das falcatruas, das imoralidades, da falta de civilidade, da arrogância.

“Os outros” educaram seus filhos para disputar espaços, sobressair-se aos demais, sem medir efeitos nas relações solidárias, na convivência fraterna.

“Os outros” escolheram governantes e representantes ineptos, e abdicaram de participar, acompanhar e exigir aperfeiçoamentos na construção de uma sociedade mais justa.

“Os outros” aproveitaram-se de nossa passividade para furar filas, ultrapassar em manobras perigosas, ocupar as calçadas, ameaçar nossa integridade.

“Os outros” construíram barreiras intransponíveis que dividem ricos e pobres, velhos e novos, socialmente cultos e mestres da sobrevivência.

“Os outros” usufruíram de seu status para obter privilégios, para alavancar carreiras, para estampar vantagens.

“Os outros” fingiram-se de cordeiros para correr como lobos, e reinar como leões, para desgosto de nossa apatia enciumada.

Não fossem “os outros” viveríamos mais felizes em nosso sonho alienado, uma fantasia criada pela nossa teimosa mania de ver o mundo apenas do nosso ponto de vista.

Estaríamos livres da cumplicidade irrevogável de sermos pessoas deste tempo, deste lugar, dessa história.

Somos parte de uma sociedade carente de valores e princípios, ávida por desenvolvimento humano, sedenta de exemplos de caráter e liderança.

Transformar as cenas que denunciam nossa incompetência em conviver solidariamente numa realidade promissora de valorização da ética e prosperidade social é tarefa cotidiana e coletiva.

Então, culpar e punir estarão recheados de significado, como partes de um aprendizado contemporâneo, para manutenção de uma sociedade mais madura e mais livre.

23 julho 2007

LIÇÕES DA SEMANA

Imagens chocantes, depoimentos desesperadores, opiniões emocionais, discursos burocráticos, realidade devastadora.

A semana do maior acidente aeronáutico brasileiro é o ápice de uma repetitiva cadeia de desencontradas ações e estapafúrdias explicações, na quase aniversariante crise aérea nacional.

Da impossibilidade de explicar acidentes aéreos à incapacidade de gestão da infra-estrutura da aviação comercial, seguem-se uma sucessão de erros, manifestações descabidas das autoridades governamentais, decisões descoladas da realidade e miopia dos interesses comerciais.

A desfaçatez dos gestos dos dirigentes diante da fragilidade das pessoas que à própria sorte, sentiram na pele o efeito dramático da desgovernança é assustadora. A desconsideração ante a consternação que tomou conta da sociedade indigna a todos.

Noutro lado da explosão consumista dos vôos domésticos, estão as empresas aéreas e sua voracidade na obtenção de lucros resultantes da exaustão das rotas, da concentração das conexões em Congonhas, da redução obsessiva de custos, da construção artificial de uma imagem voltada para a atenção ao cliente, que se desfaz facilmente ao primeiro pedido de informações, que não se sustenta no primeiro sinal de dificuldade.

É certo que não visualizamos a totalidade dos interesses atingidos desde o acidente do avião da Gol, ano passado, quando se tornaram vilões os pilotos americanos, os controladores, os militares, os governantes.

Num país com tantas carências e desigualdades sociais, com aspirações ao crescimento econômico, pensar a infra-estrutura de transportes de modo amplo, com planos consistentes e de longo prazo é tarefa urgente.

A manutenção dos aeroportos, a eficácia dos centros de controle do espaço aéreo, a efetividade dos controladores, são atribuições mínimas para a sobrevivência de um sistema de transporte aéreo minimamente respeitável.

Alternativas de transportes com trens rápidos, desconcentração das rotas aéreas, interiorização do desenvolvimento fazem parte um movimento indispensável de melhoria da qualidade de vida nas metrópoles.

O enorme paradoxo que se evidencia nessas situações de crise é o conflito entre a crescente participação política e exercício da cidadania pela população e a despudorada conveniência das elites e dos políticos em emitir sinais descompromissados em relação aos fatos concretos.

A reincidente ausência de informações, a omissão e a fragilidade das autoridades para tomada de decisões que defendem o interesse público, a conivência com a popularização desenfreada do transporte aéreo independente de uma fiscalização e estrutura compatível com a demanda estimulada pela guerra de preços são ingredientes sempre presentes nessa interminável e problemática relação entre o governo, as empresas aéreas e a população.

As lições da última semana foram muito duras. Se vamos ultrapassar a perplexidade e a comoção para atitudes melhores na ética comercial e nas funções públicas só o tempo irá dizer. É o mínimo que podemos fazer em nome dos que perderam suas vidas em conseqüência da passividade nacional diante de tão significativos desafios.

07 julho 2007

HUMANAMENTE POSSÍVEL

Vivemos no mundo do trabalho.

Nele empenhamos nossas esperanças, carregamos nossos esforços, lapidamos nossas ambições, entregamos nossos melhores talentos.

Não sem motivo, temos pouco tempo para comemorar, para almoçar em família, para ler um livro, para tomar sol, para correr na praia.

Mas essa não é a pior constatação.

Para almejarmos construir um país que seja minimamente melhor do que hoje para nossos filhos e netos, não basta nos indignarmos com as diárias notícias negativas dos telejornais.

A ousadia de difundir e a coragem de praticar a ética, a solidariedade, a preservação do meio ambiente, a defesa da paz, precisam fazer parte da nossa atitude cotidiana.

A teimosia da honestidade e a perseverança da honradez não podem sucumbir aos desejos imediatos que se locupletam na arrogância.

Disfarçar as misérias da indiferença urbana, dar as costas ao abandono dos sertões não assegura os padrões das exigências estéticas globalizantes.

Nenhum crescimento econômico seduzirá por si só as nossas mentes, transformando-as em depositárias dos valores humanos essenciais.

Evoluir e repensar tudo, todas as coisas, todos os mitos, os preconceitos, os sinônimos de sucesso, os sabores do poder, isso é urgente.

Criar o novo, para sermos melhores, com a riqueza do significado do que é ser melhor.
Humanamente possível.

15 maio 2007

RELIGIOSIDADE

Concluída a visita do Papa Bento XVI, podemos dimensionar o papel da religiosidade na formação da identidade contemporânea do povo brasileiro.

País que acolheu uma diversidade de etnias e povos, o Brasil mistura as mais diversas crenças religiosas no seu amplo território, que além de enriquecerem a cultura popular, contribuem na consolidação das idéias, dos valores éticos e da pluralidade ideológica.

O catolicismo tradicional apoiado em uma história republicana menos democrática que a atual firmou-se como a religião oficial. Arejada pelos movimentos populares e sindicais, a Igreja Católica assistiu parte significativa do clero mergulhar na ação histórica e política, participando ativamente de mudanças sociais, sob a inspiração da Teologia da Libertação.

Após uma ressaca de ativismo de esquerda, e alertada pela perda expressiva de fiéis para outras denominações evangélicas e pentecostais, a nova igreja católica aposta em inovações midiáticas moderadas por uma teologia do tipo “volta às origens”, que caracteriza o papado atual.

O modo eclético da sociedade brasileira se relacionar com as religiões contrasta com a tentativa de se impor um dogmatismo excessivo, ao mesmo tempo em que se fragiliza a fidelidade ao culto de origem.

Por outro lado, essa nação repleta de ensinamentos espirituais adota lideranças políticas pouco comprometidas com valores morais, e não podemos desvinculá-las daqueles a quem representam.

Da maioria católica não rotulada por sua opção religiosa, às bancadas evangélicas, uma maioria significativa de nossos políticos aproveitou o desvio dos holofotes de Brasília para a visita do Papa em São Paulo para aprovar aumento salarial aos congressistas, que atingirá também o Executivo, e deve beneficiar também os mandatários das assembléias legislativas e câmaras municipais pelo país.

A sociedade em que vivemos carece de atitudes coerentes com os valores defendidos, com os ensinamentos difundidos, com as crenças adotadas.

A visibilidade obtida pelo líder do catolicismo em sua visita ao Brasil, não garante uma adesão da imensa população que o acolheu aos valores morais e aos princípios éticos por ele defendidos.

Assim como em todas as religiões, os preceitos positivos e edificantes precisam sair das liturgias e doutrinas, para o cotidiano real dos que querem construir melhores dias.

26 abril 2007

JOGOS E ILEGALIDADES

A exposição pública do envolvimento de juízes, policiais e advogados com o esquema que favorece o funcionamento de bingos para benefício de bicheiros e empresários do ramo de jogos ilegais causa perplexidade na sociedade e desacredita as instituições.

A Polícia Federal no exercício de suas atribuições desvenda uma rede de corrupção, lavagem de dinheiro e uso desmedido de poder, engendrado com a conivência das autoridades locais, sustentado na expedição de liminares que autorizam a manutenção dos bingos, ao largo dos parâmetros legais.

A constatação de que escolas de samba do carnaval carioca são lideradas por indivíduos envolvidos nesta combinação ilícita torna nebulosa a explicação sobre a origem dos recursos da mais linda das festas populares do país.

Violência e corrupção são ingredientes já conhecidos num confronto persistente de verdadeiras máfias pelo controle da arrecadação das máquinas caça-níqueis.

Espantada com a complexidade das denúncias e com a intrincada relação estabelecida entre o poder e a bandidagem, a população quer o esclarecimento dos fatos e a punição exemplar dos culpados.

Mais do que um compromisso público, a revelação das entranhas dessas ilicitudes, e a conseqüente responsabilização dos seus autores é o único caminho para poupar a imagem das categorias profissionais a que pertencem e das instituições que representam.

31 março 2007

O PAÍS DAS MARAVILHAS

O Tribunal Superior Eleitoral anunciou a construção de um novo e luxuoso prédio em Brasília, cujo investimento superará os trezentos e vinte milhões de reais.

Comissão da Câmara dos Deputados aprovou para os legisladores federais uma ajuda de custo adicional para exercício de seus mandatos no valor de cinco mil reais, sem necessidade de comprovar ou justificar os gastos, além de um significativo aumento salarial. A proposta ainda será votada no plenário.

O presidente da República chamou de “heróis” os políticos que assumem os cargos ministeriais em troca de salários de oito mil reais.

O que se depreende dessas notícias é que não foram somente as águas de março que inundaram nossas cidades causando o caos no espaço aéreo e no transito das avenidas das metrópoles.

As mentes palacianas também foram invadidas por uma criativa inspiração de fazer inveja aos contistas infantis, embarcando numa fantasiosa viagem por um país das maravilhas, desconhecido pela maioria da população brasileira.

Desnecessário comentar e criticar os desperdícios, as leviandades, as imoralidades.

Para um povo carente de emprego, habitação, saúde e educação, que precisa sobreviver na insegurança das metrópoles, essas iniciativas são aberrações que causam profundo sentimento de frustração com os governantes, semeando desesperanças, abortando projetos de vida, estimulando a prática de se obter vantagens sobre o valor da solidariedade e do desenvolvimento da sociedade.

A exposição intensa na mídia do caos nos aeroportos – respeitados os passageiros prejudicados e os trabalhadores do setor que são os principais perdedores – é também uma demonstração de como olhamos para interesses de minorias privilegiadas enquanto damos as costas aos inúmeros problemas de transporte público espalhados pelo país.

Precisamos olhar para o Brasil de verdade que habita no sertão, que desbrava a floresta amazônica, que sobe e desce morros, que anda espremido nos trens, ônibus e metrôs, que chacoalha nas estradas e avenidas esburacadas, que cria calos nas mãos nos cortes de cana e nas construções urbanas. Como canta Milton Nascimento: “Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país”.

Quanto à surreal estrutura de poder em Brasília, que não se comove, nem escuta a voz da sua gente, persistirá o isolamento e a fanfarronice.

Até que a sociedade se faça ouvir, quem sabe, usando também de uma criatividade infantil, cheia de vida, de esperança, de vontade de crescer.

06 março 2007

A MOSCA AZUL

Teve uma especial importância para mim, a leitura de “A Mosca Azul”, de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto - livro que recebi do meu amigo Max. Trata-se de um depoimento importante sobre a história do Brasil nos últimos quarenta anos, pela ótica de um religioso de tendência esquerdista, defensor do socialismo e comprometido com transformações da sociedade brasileira.

Não há a preocupação de esmiuçar conceitos filosóficos, nem precisar acontecimentos históricos, mas sim, destacar idéias que mobilizaram as pessoas a construírem um país diferente, num determinado contexto, sob determinadas condições.

A conjugação de circunstâncias históricas que culminaram com a eleição de um operário metalúrgico à presidência da república – feito que independente de qualquer posicionamento partidário tem significado extraordinário – jamais se repetirá.

A resistência à ditadura, o retorno dos expatriados, a construção da legalidade democrática, a expansão dos movimentos populares, religiosos e sindicais no interior da sociedade, a mobilização dos trabalhadores urbanos e agricultores, tudo concorreu para a conscientização cidadã e a geração de expectativas superiores para o desenvolvimento do país.

Quando o partido que majoritariamente atraiu para si a liderança desse processo libertário esbaldou-se nas regalias do poder central e inibiu-se de sua história socialista, os sonhos se desvaneceram, a utopia ficou ainda mais distante e precipitou-se sobre nós o sentimento de que décadas de dedicação aos mais nobres valores humanos foram perdidos, ou pelo menos, preteridas pela complacência com o “status quo”.

Em sua sensatez, Frei Betto chama a atenção para a perenidade da opção pelos mais pobres, para a integridade das atitudes solidárias, para a permanência da aspiração socialista.

Não há motivos para nos acomodarmos aos refrões que apontaram nos últimos anos o fim dos sonhos, a queda dos muros, a globalização das mentes.

Não queremos ser cúmplices de uma sociedade que idolatra o lucro, padroniza o consumo, e incute nas crianças desde cedo a obsessão pela propriedade como instrumento de afirmação na sociedade.

Rejeitamos a miséria que nos envergonha enquanto humanos, sabendo que ela é resultado da concentração capitalista, de sistemas de produção que se transfiguram, mas não mudam na sua essência.

A humanidade que existe em nós é testemunha do que sentimos quando países de excessivo poder econômico e bélico impõem seus interesses a qualquer custo sobre os que mal podem defender-se, em que pese suas eventuais excêntricas arrogâncias.

Por tudo isso, quando as decepções parecem sobrepujar as convicções, prestemos atenção aos inumeráveis exemplos de participação criativa das comunidades, da avassaladora proliferação do voluntariado, do crescente aperfeiçoamento da participação popular nas decisões locais, do inegável aprendizado que o exercício da cidadania tem significado para todos nós, da incansável defesa da natureza pelos ambientalistas, e de tantos, que como nós, sonham com dias melhores.

O poder de mudar as coisas está tão presente entre nós, que nos excedemos em controlá-lo, evitando o desafio de um diálogo, a iniciativa de uma atitude criadora, a diferença de pensar o novo, o compromisso com a nossa identidade. Ou será que também fomos picados pela “mosca azul” ?

23 fevereiro 2007

CARNAVAL E ESPERANÇA

As incontáveis manifestações regionais que aparecem durante os feriados de carnaval retratam a riqueza antropológica e étnica constitutiva da população brasileira.

A tolerância que caracteriza a convivência dos povos do Brasil, a múltipla origem da formação da nossa nacionalidade, são elementos que reforçam o potencial criativo da nossa gente.

As conseqüências dessa diversidade cultural são complexas, e não raramente suscitam comentários preconceituosos, mentalidades elitistas e posturas separatistas, felizmente isoladas e escassas no contexto nacional.

Chama a atenção, por exemplo, a capacidade de organização e mobilização potencializada na preparação, treinamento e execução do espetáculo carnavalesco que toma ruas e sambódromos pelo país afora.

Os eventos são movidos por avassaladora paixão artística, estimuladas por ingredientes de forte competitividade e construídos sob experimentado e crescente profissionalismo dos envolvidos.

Fosse utilizada essa energia popular para a busca de novas alternativas de produção e renda, fosse canalizada essa criatividade para o aprimoramento de nossa civilidade, estaríamos certamente em outro grau de desenvolvimento.

O carnaval é uma demonstração da possibilidade real da conjugação de interesses empresariais, governamentais e populares, que se transformam em resultados coletivos expressivos.

Se não podemos eliminar barreiras históricas que impedem uma integração harmônica de realidades tão desiguais em nossos diversos “brasis”, o certo é que existem muitos exemplos promissores, que dão certo, e que não podemos deixar de aprender sobre a essência desses caminhos vitoriosos.

Claro que esse clima de festa generalizada aconteceu em meio às catástrofes ambientais, ao descrédito das instituições políticas, as barbáries urbanas, ao império das gangues e milícias sobre comunidades inteiras, sobre os quais não queremos ficar indiferentes, nem podemos.

Aproveitemos sim, modelos de sucesso, ações solidárias e cooperativas que traduzam esperança, gerem expectativas para os mais jovens e soluções comprometidas e duradouras para a maioria da população brasileira.

06 fevereiro 2007

EXTRAVAGÂNCIAS

O período de férias de verão é momento apropriado para a instalação de debates nacionais de baixa popularidade se levados adiante em períodos de excesso de noticiário.

Nesse contexto, ressurge a reflexão sobre os altos vencimentos dos membros dos poderes Legislativo e Judiciário, aos quais confiamos o exercício de algumas das mais nobres tarefas de justiça e gestão do bem público para a convivência equilibrada de toda a sociedade.

Para além dos números extravagantes que distinguem os seus salários – quando comparados a renda média dos brasileiros – o que se expõe ao juízo do cidadão comum é a eficácia do recurso alocado para essas funções, a credibilidade requerida para o exercício de cargos de tamanha envergadura, a probidade e a ética de tão privilegiados cidadãos.

A visível indiferença semeada de insensatez percebida nas respostas aos questionamentos de uma população envolvida com a busca de trabalho e sobrevivência digna, repercute como desalento generalizado que se traduz em desinteresse crescente pela atitude cidadã.

Inimaginável supor que esse descolamento da penosa realidade que atinge a maioria dos cidadãos do país possa contribuir para a eficiência do regramento social, para a eficácia do ordenamento jurídico, para o aprimoramento do regime democrático, para a operatividade do sistema representativo.

Quando enfrentam-se em tão estapafúrdias contendas, sobre o protagonismo do maior dos vencimentos, legislativo e judiciário só fazem multiplicar a desconfiança da sociedade quanto a capacidade dos poderes em estabelecer a ordem e promover a prosperidade.

O engajamento dos poderes no desenvolvimento de uma nação que aperfeiçoa sua democracia, deve partir da sua própria relação com seu papel institucional e com os desafios que lhe são outorgados.

Dos que defendem a liberdade e o direito, dos que se utilizam das possibilidades de escolha e de associação política, esperam-se atitudes edificantes, que venham contribuir para a disseminação do exercício da cidadania.

Que não tenhamos que lamentar no futuro, o tempo e a energia que foram consumidos para atender interesses particulares de doutores e parlamentares, aos quais é destinada a importante missão de inspirar prosperidade e justiça.

29 janeiro 2007

FÓRUNS E RIQUEZAS

Reunidos em Davos na Suíça, os principais dirigentes das grandes potências econômicas mundiais se debruçaram em poucos dias numa grande variedade de temas importantes para o futuro da humanidade.

A julgar pelo divulgado até o momento, o assunto principal do encontro anual reforça a preocupação das mais diversas organizações sociais pelo mundo afora: a saúde do planeta.

Parece claro que entre os números de taxas de crescimento, tarifas de comércio, subsídios e restrições, o efeito da intervenção humana sobre o clima da Terra é o mais urgente problema a ser enfrentado, sem o qual, de nada adiantarão, e para nada servirão os esforços desenvolvimentistas das nações.

Alheio aos apelos universais, o governo americano omite-se das iniciativas de defesa do meio ambiente – embora já admita a gravidade da situação.

A ação bélica no Oriente Médio de forma continuada piora o quadro de miséria das populações atingidas e torna a região ainda mais vulnerável aos desastres ambientais, como no caso recente da queima dos poços de petróleo.

O Brasil também é um país especialmente importante no cenário mundial.

Ávido por um desenvolvimento econômico que ofereça dignidade e oportunidades aos milhões de desempregados, subempregados e excluídos da vida econômica pelo fracasso do setor agrícola e parte da indústria, o Brasil é também a maior reserva biológica do planeta.

Privilegiado pela riqueza natural, o país precisa assumir a responsabilidade pela preservação das florestas e dos rios, criando perspectivas de utilização desse potencial para viabilizar arranjos econômicos sustentáveis que incluam os brasileiros à margem da prosperidade econômica urbana e essencialmente litorânea.

A exposição de idéias nos fóruns internacionais, a elaboração de planos de crescimento, a criação de fundos de investimento, serão inócuos senão acompanhados de consciência ambiental e solidariedade humana.

A solução para muitos dos problemas das grandes cidades está diretamente ligada a políticas de interiorização do país, de aproveitamento de recursos naturais estratégicos e da formação de uma comunidade científica sólida capaz de transformar essa riqueza em alternativas efetivas de desenvolvimento social.

13 janeiro 2007

RECOMEÇAR


O momento presente tem uma riqueza infinita mergulhada numa vastidão de possibilidades. A liberdade individual de decidir por um caminho, de optar por uma fonte, de escolher uma alternativa é uma indelegável e irrestrita oportunidade, que se multiplica e se eterniza a cada fração de segundo.

O ser humano histórico, amarrado por suas tradições, contido por suas crenças infantis, reduz o espaço da sua criatividade e torna-se cativo das convicções ultrapassadas e das ambições contemporâneas.

O movimento conflituoso dos povos, das castas e das culturas invade as relações dos humanos com os seres e a natureza. A descontrolada ocupação do planeta desafia as leis naturais e coloca em risco o futuro da espécie e do meio ambiente.

Nas famílias ou nos arranjos sociais modernos, as diferenças psicológicas são tragadas pela necessidade de socialização aparente, dissociada da solidariedade construtiva.

A afirmação da pessoa, enquanto personalidade única, sucumbe aos modelos estabelecidos, que por sua vez, determinam condições primitivas de convivência social.

Crescer em humanidade é uma necessidade fundamental superior aos galanteios do poder e ao perfume das riquezas materiais. Somente pelo exercício persistente da essência humana encontraremos soluções íntegras para os enormes desafios que a existência social nos apresenta.

A urgência de atitudes colaborativas entre os povos é construída a partir das iniciativas fraternas dos indivíduos. A perspectiva de um futuro mais altivo é resultado de ações inovadoras, de posturas harmoniosas e inflexões inteligentes sobre o status quo.

A existência é palco para experimentação consciente das nossas habilidades. Colocá-las a serviço da coletividade é decisão pessoal e intransferível. Recomeçar um ano, recomeçar uma carreira, reinventar a vida.

Tão estimulante quanto recomeçar é abraçar as pessoas, aspirar novas oportunidades, recriar comportamentos, transformar o mundo. O desenho de uma nova era começa pelos traços mais simples, pela visão de um sonho, pela liberdade criativa. Mãos a obra!


03 janeiro 2007

BRUTALIDADE E ALENTO

Duas faces da violência marcaram a passagem para o ano novo: uma, a morte por enforcamento de Sadam Houssein, ex-presidente do Iraque; a outra, a série de atentados desencadeados por bandidos no Rio de Janeiro.

Não tentarei encontrar semelhanças entre esses acontecimentos pois isso nada acrescentará em nossa reflexão. Se algo pode unir esse horrível noticiário que recheou a época do revellion é a nossa repulsa ao ato brutal, à lógica da morte, à preguiça do ódio.

A eliminação de Sadam atende aos interesses dos Estados Unidos, não mais por sua importância política ao lado de seus aliados sunitas, que embora minoria, dominaram o Iraque nos anos em que seu líder era apoiado pelos mesmos que hoje o excluíram de cena.

O golpe letal cumpre a emergência do governo Bush em oferecer à sociedade americana uma indicação da possibilidade de desfecho para uma invasão malsucedida ao Iraque, que não consegue por fim à enorme crise política e social daquele país.

O pretexto da vingança contra o líder sanguinário é mote para o arrefecimento das críticas à improdutividade da presença das forças americanas no Oriente Médio e à improbabilidade de uma solução de curto prazo para a estabilidade política.

No Rio de Janeiro, a surpreendente – se é que ainda podemos nos surpreender – série de ataques dos bandidos feitos aos postos policiais, aos ônibus de passageiros, e outros alvos quaisquer.

No episódio atual chamou a atenção de todos a constatação da existência de milícias – forças paralelas que segundo os meios de comunicação são formadas por membros da própria polícia e de atividades afins – que tomam favelas e bairros do Rio para oferecer a segurança substituindo o Estado de modo ilegal, em troca de taxas abusivas e exploração de serviços “públicos”.

As comunidades sobreviventes ao descaso e ineficiência das instituições, rendem-se às opções existentes – à vigilância autoritária dessas milícias ilegais ou ao cerco desagregador e desumanizante dos traficantes na busca do êxito do seu comercio de drogas ilícitas.

O combate à entrada de armas e a eliminação da rota das drogas ultrapassando a nossa fronteira são desafios importantes. A carência de habitação com urbanidade mínima e de saneamento básico humilham a população favelada.

Não são desprezíveis nesse contexto onde a brutalidade impera, a ausência do Estado protetor, a falta de empregos, a carência de políticas educacionais e esportivas para os jovens, a situação caótica dos hospitais, a escassez de infra-estrutura urbana e o esgotamento dos transportes públicos.

Em meio aos mais diversos problemas que circundam o ambiente das favelas no Rio, um sinal de entendimento entre o governo federal e novo governo estadual sobre formas estratégicas de enfrentá-los, pode ser a semente de esperança que faltava àquela população, cansada da humilhação e do desprezo governamental.


Um novo alento aos que querem viver em paz na cidade maravilhosa, o momento pode ser o início de uma caminhada mais sóbria, porém planejada e eficaz dos governantes e da sociedade, para o estabelecimento de um outro nível de civilidade, com mais dignidade e segurança para os cidadãos fluminenses.

26 dezembro 2006

NOTÍCIAS DO BRASIL


A crise dos transportes aéreos no Brasil transformou-se em singular fenômeno que marcará na memória, o final de ano de 2006.

Desde o acidente com o avião da Gol, vôo 1907, que fazia o trajeto Manaus – Brasília, chocando-se com um jato Legacy, aeronave particular que voava no mesmo trajeto, o setor aéreo tornou-se atração dos noticiários e invadiu os debates pelo país afora.

Lances improvisados do governo, tentando atenuar os efeitos da mal esclarecida deficiência do controle de tráfego aéreo, supostamente engendrada pelos próprios controladores, aumentaram a insegurança no setor.

Ficou evidente logo após o acidente do avião da empresa Gol que os controladores operam em ritmo extenuante. Os radares tiveram sua eficiência questionada, e os problemas crescem em ambiente de concorrência acirrada entre as empresas aéreas, com o crescimento do movimento nas rotas existentes.

A crença histórica na segurança do passageiro com essa modalidade de transporte foi duramente atingida, e a conseqüência dessa mudança de ponto de vista ainda poderá ser avaliada.

O custo baixo dos vôos que popularizou o acesso e inchou as filas dos check-ins pode ter sido um dos fatores de esgotamento da estrutura dos aeroportos, do afrouxamento da atuação dos órgãos de fiscalização, e da sobrecarga das rotinas de segurança, em especial do controle de tráfego.

A manutenção simultânea de seis aviões pela TAM e a cessão de outros pela FAB para cobertura das linhas prejudicadas são novos ingredientes de uma crise que ainda tem muito a ser esclarecida.

Também não custa lembrar o tragicômico pedido de congressistas por aeronaves da FAB para levá-los às suas bases antes do Natal, quando milhares de mortais comuns se amontoavam em saguões de aeroportos sob a (des)orientação de funcionários estressados com a instalada desordem no sistema da aviação comercial brasileira.

Interessante ressaltar que o caos nos transportes aéreos atinge os mais variados setores da sociedade, de modo particular e no interesse público e da economia.

Serve para que reflitamos sobre a necessidade de uma atenção redobrada na infra-estrutura do país, para que possamos trilhar o caminho do crescimento.

Do ponto de vista humano, nos sensibilizamos com a situação das pessoas em suas angustiosas esperas por um vôo que os levem aos seus destinos. Mas estamos falando de uma minoritária fatia da população que tem acesso ao transporte aéreo.

São incontáveis as situações a que são submetidos os brasileiros de menor renda para se deslocar pelo país.

Transportes clandestinos fazem rotas entre o eixo Rio/São Paulo e o norte e nordeste do país, embarcações que viajam pelos rios da Amazônia ultrapassando a quantidade máxima permitida, trens, metrôs e ônibus que com suas superlotações humilham os cidadãos no cotidiano das cidades.

Há muito que se fazer pela dignidade do cidadão brasileiro, e a nossa perplexidade diante dos fatos expostos à exaustão na mídia, precisa estar acompanhada de uma objetividade um pouco antipática: o atraso sucessivo nos vôos comerciais não é o problema número um do Brasil, especialmente quando estamos às vésperas de virar a pagina do calendário para um novo ano.

Olhar para o Brasil e para o futuro de modo amplo, construindo o melhor que pudermos fazer, para benefício de todos os brasileiros: essa deveria ser a nossa principal notícia .

13 dezembro 2006

JUSTIÇA E IMPRECISÕES

São cada vez mais freqüentes as notícias de erros jurídicos que tem como desfecho a trágica infelicidade de inocentes, expostos aos indesejáveis ambientes reservados aos criminosos e delinqüentes nos presídios e delegacias pelo país afora.

Procedimentos equivocados, prazos descumpridos, indícios mal apurados são componentes de uma desgovernada jornada ao cumprimento da lei, insensível às evidências, intransigentemente burocrática.

Fosse o cidadão, crédulo que as instituições de poder estão à sua disposição para a efetiva solução de suas demandas garantidoras de seus direitos, e esses erros não teriam maior repercussão social.

Infelizmente, a percepção da sociedade não reflete essas aspirações.

Os ritos jurídicos reproduzem as desigualdades sociais vigentes, onde os mais poderosos utilizam-se de estratégias legais diversas para prolongar processos intermináveis e escapar das imposições legais. Para os mais pobres, alvo mais freqüente dos erros jurídicos, as decisões são mais rápidas e expostas à imprecisões, que resultam em conseqüências humanas de difícil mensuração, mas de importantes significados.

É verdade que após a constituição “cidadã” de 1988, muitos direitos foram incorporados ao cotidiano, melhorando as relações dos consumidores, o respeito às minorias, os direitos trabalhistas, entre outros.

Não se pode desprezar a crescente consciência dos brasileiros para a defesa dos direitos tanto coletivos, quanto individuais, nas últimas décadas.

Entretanto ainda há um longo caminho para que os meios legais estejam acessíveis aos que mais necessitam da ação reparadora do Estado.

Os próprios membros do poder encarregado de preservar a harmonia da vida em sociedade, oferecem exemplos de conduta reprováveis, quer quando se apropriam de recursos públicos para benefícios salariais descolados da realidade nacional, quer quando persistem na adoção de práticas de nepotismo em sua estrutura funcional.

É preciso reconstruir a credibilidade do judiciário a partir de ações inclusivas para os menos privilegiados. Reforçar a idéia de que “justiça” não seja apenas uma palavra que representa um poder institucional, mas que signifique a solução imparcial dos conflitos de interesses, valorizando a convivência humana dentro de padrões elevados de ética.

28 novembro 2006

ESTADO DE ALERTA

O verão está chegando, e com a nova estação, o aumento de intensidade pluviométrica, companheira dos dias mais longos do nosso horário modificado e suas temperaturas mais altas.

Nós, cidadãos comuns, e nossos governantes, somos sabedores dos efeitos das chuvas de verão no ambiente urbano, hostil ao movimento natural das águas.

Apesar disso, a sensação que experimentamos é de que somos tomados de assalto pelas intempéries. Alagamentos espalham-se pelos bairros, os congestionamentos diários se ampliam, sinalizações fracassam e o apoio das instituições e dos concessionários de serviços públicos não podem ser considerados suficientes.

Não são incomuns os estragos causados pelas ruas, em especial nas periferias e suas áreas de risco, e a conseqüente deterioração das condições sanitárias, a proliferação de doenças, a desocupação emergencial das residências, entre outros.

Passam os anos e as causas históricas dos desequilíbrios ambientais que alimentam estas situações são pouco atenuados. As metrópoles seguem absorvendo populações do interior seduzidas pela oferta de trabalho, que se espalham desordenadamente em áreas sem condições de habitabilidade.

As aglomerações urbanas impedem a adequada harmonia necessária para a preservação das áreas verdes, proteção dos rios e suas nascentes, além do revestimento inevitável do solo pelo asfalto e pelo concreto, que detém o escoamento da água das chuvas.

Também é relevante a constatação da escassa cultura ecológica da população, que se traduz em acúmulo de lixo pelas ruas, desperdício de água potável, uso excessivo de transporte individual particular, entre tantos fatores que contribuem para o desequilíbrio ambiental.

Está na hora de tratamos a questão do meio ambiente como prioridade fundamental. As ações para recuperar a saúde do planeta precisam ser permanentes, atingindo as causas das tragédias naturais. E as atitudes da sociedade devem refletir a urgência que o assunto requer.

Para o bem do planeta, a solução está na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa rua, na nossa casa. Importante começar. Imprescindível persistir.

25 novembro 2006

A OBESIDADE, A ANOREXIA E A FOME

Um desafio moderno para os médicos e nutricionistas é a crescente incidência da obesidade a partir das crianças e jovens, que se vêem bombardeados pelas campanhas publicitárias de produtos de alta taxa calórica e pouca riqueza nutritiva.

A vida urbana atual afasta os adolescentes das praças e práticas esportivas, e quando alguma atividade física faz parte de sua rotina, vem acompanhada de tensões por carga excessiva de tarefas, planejadas pela família para ocupação total do tempo criativo.

A acomodação dos jovens aos rituais modernos trazidos pelas novas tecnologias de comunicação e informática aumenta as dificuldades para o desenvolvimento de uma boa saúde física e tende a provocar o aparecimento precoce de doenças originárias da obesidade e do sedentarismo.

Na contramão dessa situação, e não menos preocupante, é o vício da não alimentação, o culto à magreza – que fora futilmente associada a padrão de beleza – e cujo efeito à saúde evolui da anorexia para a morte, quando não tratada de forma adequada.

O estereótipo da beleza comercialmente explorada é alvo fácil para personalidades juvenis em formação numa sociedade em que a educação formal pouco prepara os alunos para a vida real, e em que a família tem perdido influência para outros interesses mais sedutores, prevalecendo o narcisismo como caminho para o reconhecimento social.

Proliferam largamente os negócios e profissões associados ao aperfeiçoamento da aparência física, numa demonstração da importância da vaidade pessoal como valor socialmente aceito. A estética se estabelece entre nós como prioridade individual para a inserção nos grupos sociais.

Paradoxalmente, a fome ainda é uma realidade para milhões de brasileiros. Programas sociais em contínua expansão procuram alcançar os mais diversos rincões buscando minimizar o impacto da miséria histórica e das permanentes crises das economias locais do interior do país.

São necessárias medidas de emergência acompanhadas de projetos estruturantes, que libertem essas populações da dependência contínua, e as situem em novos padrões de dignidade.


Estão expostas as marcas de uma sociedade imediatista, que ainda precisa de muito esforço para a construção de novos paradigmas de convivência.


A obesidade, a anorexia e a fome são três faces exemplares de um país que ainda não encontrou modelos sólidos para a formação das novas gerações. A transformação dessa realidade depende de atitudes novas, engajadas e responsáveis de todos.

07 novembro 2006

DESCONTROLES

Exposta cruamente a deficiência da nossa sociedade em alcançar novos padrões de entendimento quando estimulada pela verdade dos fatos e a dor dos acontecimentos funestos.

Suplantando reflexões equilibradas, arroubos ideológicos e politiqueiros irrompem na mídia, apresentando idéias mirabolantes para problemas complexos, como a crise da aviação comercial sob efeito de manifestação silenciosamente organizada pelos controladores de tráfego aéreo.

Diante do exacerbado descontentamento dos usuários dos vôos domésticos, poucas vozes foram capazes de discernir que o maior dos problemas não estava no momentâneo atraso das decolagens, mas na atitude com a qual nossa sociedade utilitarista quer enfrentar desafios estruturais nos momentos de eclosão das crises.

Categorias profissionais encarregadas de serviços vitais para a coletividade são inescrupulosamente ignoradas até que um movimento reivindicatório lhes coloca em destaque na mídia e nos debates públicos e institucionais.

Para uma contemporaneidade crédula de que o mercado ajustará ofertas de produtos e serviços às demandas e necessidades da população, cabe lembrar de tantas outras atividades desinteressantes para a formação imediata de lucros, mas indispensáveis à sobrevivência da população, especialmente aquelas de menor poder de compra.

Como no caso dos controladores de tráfego aéreo, cuja abnegação pelo trabalho sem reconhecimento adequado rompeu-se após sucessão de fatos que demonstram enormes dificuldades para o desempenho de excelência que sua profissão requer, outras categorias carecem de atenção específica.

O segmento do trabalho nos debates políticos é continuamente abordado sob a ótica da quantificação de geração de empregos, sem uma estruturação ordenada de prioridades na formação de profissionais em escassez ou das necessidades de atendimento à populações periféricas, regiões de difícil acesso, profissões de risco ou políticas públicas em desenvolvimento.

São noticiados esporadicamente nos meios de comunicação casos de esgotamento de categorias ou atividades, que afetam drasticamente o bem estar e o cotidiano das pessoas: sobrecarga nos portos e agências alfandegárias, falta de profissionais da saúde em hospitais públicos nas periferias, ausência de fiscais ambientais, especialmente na Amazônia, entre outras.

Dispensa-se explorar o momento traumático vivenciado pelos familiares das vítimas do recente acidente aéreo, que é ponto de ebulição da conturbada semana vivida nos aeroportos brasileiros. Importante é extrair as lições desse episódio, orquestrando ações permanentes de atenção às atividades de risco, às necessidades vitais da população e a formação induzida de profissionais indispensáveis. E superar essa ansiedade descontrolada de inventar soluções de curto prazo, que sucumbem na próxima crise.

30 outubro 2006

SEMELHANÇAS DEMOCRÁTICAS

A decisão que o povo consagrou nas urnas é contundente e não deixa margens à dúvidas quanto ao presidente escolhido. A votação de Lula no segundo turno é incontestável e repete a façanha da reeleição conquistada por seu antecessor Fernando Henrique Cardoso.

O momento é de análise da mensagem que as urnas querem revelar. Alguns analistas explicam a derrota do PSDB através dos erros cometidos pela campanha de Alckmin, enquanto outros procuram destacar o panorama da realidade brasileira, em que amplas massas de brasileiros são alcançados pelas políticas públicas que complementam renda e diminuem a miséria histórica.

A campanha de Lula saiu-se muito bem em demarcar a participação do governo no combate das desigualdades sociais, salientando a importância dos benefícios distribuídos para a sobrevivências das pessoas e das economias locais em inumeráveis rincões do país. A autoria dos programas sociais em curso não estavam em discussão, mas a efetividade deles no cotidiano das pessoas, e esse aspecto foi muito bem capitalizado.

A identificação de Lula com os trabalhadores do país, seu diálogo de fácil entendimento com parábolas e citações da vida real, o tornaram mais próximo das aspirações do povo. Também não se pode desprezar o enraizamento do PT na sociedade, em todas as regiões.

As tentativas dos oposicionistas de marcarem o governo com a marca da corrupção não foram suficientes. O insistente questionamento quanto a origem do dinheiro que compraria o suposto dossiê contra os tucanos esvaziou-se na repetição, ainda que seja considerado legítima, essa indagação.

A situação dúbia do PSDB quanto a questão das privatizações, o apoio mal recebido de Garotinho, no Rio de Janeiro, no segundo turno, e a fragilidade da sua atuação nos governos estaduais, especialmente em São Paulo na questão da segurança, foram determinantes para a escolha de Lula.

Destaque-se ainda que os votos de Lula foram somados aos de Cristóvam Buarque e Heloísa Helena, além dos que migraram do próprio Alckmim, que teve votação inferior ao primeiro turno, o que demonstra o fracasso de sua proposta quando exposta ao confronto direto do segundo turno.

A longo prazo é possível prever um novo arranjo partidário no país, que busque evidenciar as diferenças ideológicas ou pragmáticas dos grupos que disputam o poder. A semelhança de idéias promovidas pelos postulantes ao cargo presidencial ficou nítida nos debates e nos programas veiculados no rádio e televisão.

Carece de originalidade o discurso da quantidade de milhões de reais que cada um emprega em um setor de serviços públicos ou de desenvolvimento regional. Sobre a condução da economia não se conseguiu perceber qualquer alternativa significativa ao atual modelo, o que desmotivou o eleitor a promover uma mudança.

A boa notícia é a afirmação consistente da nossa democracia. Ressalvadas exceções, as eleições comprovaram nossa maturidade republicana. Demonstrações de apreço democrático entre os adversários demonstraram que temos potencial para a construção solidária e generosa de um país melhor.

25 outubro 2006

O TERCEIRO TURNO


Surgem aos poucos na mídia algumas infelizes declarações verbalizadas por opositores ao governo atual, às vésperas de uma prognosticada derrota eleitoral, mantidas as tendências das pesquisas de opinião realizadas pelos institutos mais importantes.

Promete-se acalorar o cenário pós-eleitoral com uma orquestrada pressão judicial, com o intuito de invalidar o pleito, deslegitimar o provável eleito, cassar o mandatário proclamado pelas urnas, sob o argumento de crime eleitoral, fundamentado nas imoralidades cometidas na malsucedida compra de um suposto dossiê que prejudicaria a candidatura oposicionista.

É verdade que os fatos que circundaram o ato desonesto ainda não estão devidamente esclarecidos, tomam tempo e esforços da Polícia Federal que esmera-se em desvendá-lo - bom que se diga - trata-se de instituição imparcial e competente para tal.

Confirmadas as suposições de que o dinheiro para a aquisição dos documentos arranjados para a aniquilação da candidatura de oposição têm origem ilegal - o que por si só estabelece a irregularidade na campanha eleitoral - resta a investigação sobre a origem e o conteúdo das denúncias existentes que até o momento não foram divulgadas.

Por ora, a candidatura oposicionista não foi incomodada com as pretensas informações adquiridas a peso de ouro, não tendo elas, portanto, qualquer influência na avaliação negativa do eleitorado ao presidenciável virtualmente derrotado.

Espera-se, a título de curiosidade gerada pelo impacto que o tal dossiê obteve na mídia, que saibamos num futuro próximo o que essas acusações amealhadas com fim destrutivo tem de verdadeiras, o quanto elas poderiam ter contribuído para uma percepção mais nítida das candidaturas em disputa.

Ainda assim, carece de espírito democrático essa atitude ameaçadora, que busca levar ao “tapetão” (expressão conhecida no mundo do futebol, quando se busca alterar resultados obtidos em campo pela via do Tribunal Desportivo) a decisão que democraticamente a população tomará no próximo domingo.

Punam-se os culpados, responsabilize-se os autores, erradiquem-se da sociedade as imoralidades, desmascarem-se as mentiras, mas não se promova um terceiro turno a partir do desconforto dos eventuais perdedores.

O país não gira ao redor do cargo presidencial e os esforços dos que querem o bem público devem ser direcionados a organização política, ao crescimento, ao bem estar social, aos enormes desafios que enfrentamos para assegurar dignidade mínima à maioria da população brasileira.

Um terceiro turno não fará nenhum bem, ao contrário, estenderá a derrota a todos os brasileiros, que continuarão assistindo um combate infrutífero, alimentado pela obsessiva paixão dos partidos dominantes pelo poder, expondo ainda mais à sociedade a carência de integridade dos que almejam governar.



23 outubro 2006

O BRASIL E O MEIO AMBIENTE


A presença brasileira nos fóruns internacionais que efetivamente influenciam nas decisões sobre o futuro do planeta é tema importante e raramente abordado nos debates eleitorais.

Nos momentos de acirramento bélico no Oriente Médio, com ou sem a intervenção de países do ocidente, destaca-se na mídia a aspiração do Brasil à uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, hoje reservado à participação das grandes potências econômicas.

A constituição de blocos regionais que de forma antecipada preparou os países ricos para o atual processo de globalização da economia, desafia os dirigentes políticos e empresariais brasileiros a desempenhar sua liderança natural na América Latina. Movimentos realizados pelo Chile, Argentina, e recentemente a Venezuela tem ofuscado o lugar que poderia ser ocupado pelo Brasil como liderança política e econômica na região.

São esses os motivos mais relevantes que colocam em debate os erros e acertos do governo brasileiro, quando se analisam suas relações internacionais. Entretanto, é cada vez mais urgente evidenciar o destacado lugar do Brasil no cenário mundial quando o assunto é o meio ambiente.

A vida do planeta sofre ameaças em todos os continentes. São conhecidos de todos os diversos acidentes e desastres ambientais dos últimos anos, cujas causas são em grande parte resultantes da ação da sociedade moderna.

O Brasil, pelas suas riquezas naturais, pela sua densidade demográfica, pelas suas dimensões territoriais, pela extensão de sua orla marítima, pela sua contribuição negativa na produção de poluentes, é um país decisivo para o sucesso de qualquer ação de cooperação internacional que tenha a melhoria do ambiente natural como objetivo.

Concomitante à defesa dos bens naturais herdados no nosso solo, cabe aos brasileiros uma postura ativa na construção da educação ambiental, na promoção da economia sustentável, na preservação ecológica, no desenvolvimento humano.

Trata-se de prioridade nacional, a consciência de cada cidadão, de cada empresário, de cada governante, da condição de protagonista que o Brasil deve ter no cenário mundial no tema meio ambiente.

Somente uma atitude pró-ativa e responsável evitará que a nossa natureza privilegiada seja tratada de forma universalista, tutelada pelas grandes potências, que centralizam atualmente as grandes decisões mundiais.

14 outubro 2006

PENSAR E AGIR


O sonho da maioria dos brasileiros é um singular cômodo para abrigar sua família, uma ocupação capaz de lhe trazer dignidade e sustento, uma assistência segura nos momentos de necessidade, uma trilha nos caminhos do saber para o crescimento daqueles que os acompanham.

Distantes da vida real, o paradoxo da mídia, os discursos políticos, os privilegiados da elite, os sedentos de poder, os donos das riquezas.

Como enfrentar tamanhas dificuldades, a mercê do humor dos governantes, da empáfia dos corruptos, da indiferença dos vencedores? Até quando seremos cúmplices da apatia social, que cala diante das imoralidades do Estado, que silencia diante das violências degradantes, que se acomoda frente a desconstrução da esperança e da solidariedade ?

Cada um de nós, é parte integrante da dita sociedade moderna, erguida sem o menor constrangimento para o império dos valores egocêntricos sobre os coletivos, para a ostentação do ter sobre a mansidão do ser. O movimento dos dias é surdo ao grito dos pedintes, cego aos sinais de desespero, indiferente às injustiças sociais. O senso de humanidade não nos instiga à atitudes mais compromissadas com os menos favorecidos; nossa consciência social não tem força para nos tirar da inércia; informações em excesso não produzem reflexões construtivas.

Pensar sobre tudo isso não deve nos entristecer. O desbravamento de caminhos alternativos, a busca de espaços, a abertura de novas fronteiras são movimentos naturais da humanidade em evolução. A síntese entre a comoção e a ação é um resultado complexo, repleto de variáveis psicológicas, que não nos deve paralisar ou intimidar.

Atentar para as necessidades contemporâneas em alinhamento com o desenvolvimento das pessoas em sua integralidade é o desafio que precisamos enfrentar para o alcance de um estágio superior de convivência.

Olhar para o presente, caminhar para o futuro.

10 outubro 2006

SEGUNDO TURNO


Inaugurada a fase de debates para o segundo turno das eleições presidenciais, percebe-se o caráter agressivo dos candidatos, assumido no calor da campanha e evidenciado pelo ritual destrutivo das mútuas acusações e infrutíferas frases de efeito.

A propagada preocupação com a ética e com o respeito ao eleitor não passam de declaração de intenções, visto que ambas são superadas pela ânsia do poder a qualquer preço.

Particularmente no contexto brasileiro, restaram no segundo turno opções de partidos tipicamente antagônicos pela trajetória política que os consolidou como alternativas nacionais, mas claramente semelhantes no que concerne às práticas de gestão pública e ao pragmatismo da formação de alianças.

O exercício democrático do voto está claramente limitado pela ausência de alternativas ideológicas ou programáticas. O eleitor precisará fazer uma escolha que pouco representará em termos de caracterizar uma visão de Estado ou um modo de governar.

A descrença do cidadão com as instituições, a falta de aprofundamento das questões prioritárias do país e o descompromisso dos governantes com a participação coletiva tendem a estimular a alienação social, isolando a atuação dos legisladores e burocratas.

É preciso que se retorne aos debates principais, como a saúde, educação, geração de emprego, entre outros, explicitando-se as propostas existentes para a melhoria do país, e proporcionando aos brasileiros o reconhecimento de diferenças que existam entre os candidatos oponentes.

Esse é o serviço a que se prestam os horários na mídia e os debates ao vivo oportunizados pelos meios de comunicação social. Ou se estará tendo a impressão de ser um mero formalismo, para justificar todo o aparato institucional que se disponibiliza para o evento eleitoral. E não parece o caso.

24 setembro 2006

APRENDIZADO ELEITORAL

Em plena fase final da campanha eleitoral, torna-se evidente a fragilidadedas agremiações partidárias, desfiguradas de ideologias e carentes de inserção social. A criação dos partidos politicos no ambiente pós-ditadura se deu em um contextode ressentimentos e expetactivas quanto ao sucesso da experiência democrática.
O Partido dos Trabalhadores surgiu dessas esperanças, alimentadas pela energia dos movimentos sindicais nas grandes cidades, das demandas culturais pela livre expressão, dos grupos religiosos e comunitários nas periferias. O PT que elegeu Lula em 2002 é resultado de uma jornada de duas décadas semeando a oposição ferrenha às elites dirigentes, de uma estruturação orgânica e nacional, ora acompanhando, ora liderando o amadurecimento da sociedade, na sua atitude de cidadania.
Lula chegou em Brasilia saudado por amplas massas, intelectuais e até por estadistas e governantes mundiais como a solução para um país com baixa estima, complexas desigualdades sociais e necessidades urgentes decrescimento econômico e geração de empregos. Levou na bagagem um currículo rico em simbolismos inspiradores para a sociedade pela sua ascenção social de retirante nordestino à Presidente da República, pelo significado da participação do PT na construção democrática e pela ostentação insistente da autodenominada "bandeira da ética" que elevaria as relações entre o Estado e a coletividade a um novo patamar de decência e credibilidade.

Frustados esses prognósticos, a avaliação do atuação do governo nos ultimos quatro anos, concomitante a análise das alternativas existentes, acontecerá nas urnas, na eleição que se aproxima. Contudo, mais do que aprovar ou não esse modelo de gestão, o evento eleitoral é uma declaração de esperança da população brasileira, que mais uma vez delegará poderes a uma maioria de reeleitos, apesar de todas as desconfianças produzidas ao longo dos últimos quatro anos.

Convenhamos, trata-se de superar as crenças desenvolvidas nos últimos anos do século passado, de que um partido nascido de tão engajadas organizações sociais atuaria no poder central de modo a reparar as injustiças sociais balizado pela ética no rumo da prosperidade nacional.
Tomara, essa postura não seja decorrente de ignorância ou indiferença, mas numa atitude verdadeiramente democrática,que entende que a evolução do país é um processo intenso de contradições, e o aprendizado histórico é um caminho tortuoso, porém seguro para um povo que deseja crescer como nação.

20 setembro 2006

COSTUMES E INSTITUIÇÕES

Com o final da campanha eleitoral, voltaram a ocupar o noticiário e as primeiras páginas dos jornais, os escândalos protagonizados por políticos, burocratas e assessores governamentais.
A utilização de dossiês elaborados para atacar políticos adversários, o uso dos meios de comunicação de massa para sua divulgação - em especial, as revistas semanais - e a circulação de dinheiro de origem desconhecida estarrece a sociedade, abalando o clima democrático que deveria prevalecer no período atual.

A par do esclarecimento necessário das ilegalidades e imoralidades, e a responsabilização daqueles que as cometeram, resta a reflexão sobre a oportunidade de urgente reforma das instituições nacionais. A política e o sistema democrático são atingidos por intensa onda de descrédito, cuja manifestação mais explícita é o propagado movimento pelo voto nulo, que inevitavelmente alcançará fatia considerável do eleitorado.

A falência do Estado, no cumprimento de suas funçoes de mediação, proteção e prestação de serviços ao cidadão reflete uma crise de autoridade dos poderes constituídos aliado a ausência de contrapartida da sociedade, que preponderantemente ausenta-se da participação consciente, da atitude responsável e da atitude construtiva.

O redesenho da realidade brasileira não acontecerá por acaso, golpe de sorte ou medidas demagógicas. Somente a incorporação coletiva de um sentimento nacional e solidário, que produza atitude cidadã no presente e compromisso com o futuro, nos transportará para uma perspectiva nova.

O papel de cada indivíduo na comunidade, no trabalho e nas organizações ativas é a melhor contribuição para a construção da cultura da convivência ética, do desenvolvimento humano e da responsabilidade social. Uma resposta sólida e perene para os maus costumes que permeiam as instituições.

15 setembro 2006

TRABALHO EM EQUIPE

Gurus e marqueteiros; especialistas e pragmáticos; muitos se dedicam a publicar e promover os caminhos para as vitórias pessoais. Líderes são alçados às elites dirigentes após experiências bem sucedidas à frente de suas equipes e organizações. Ainda não se apurou a fórmula para o sucesso dos empreendimentos humanos, nem se traçou estrada definitiva para resultados duradouros.
Sabe-se que o reconhecimento dos esforços e habilidades das pessoas é uma das atitudes de líder, capaz de multiplicar o potencial existente. Também é verdade que planejamento, controle e aperfeiçoamento das ações são instrumentos clássicos de gestão, contidos nos livros texto de administração.
Mas a mais complexa e desafiadora característica de uma organização vencedora é o trabalho em equipe. Uma verdadeira equipe não se forma pela localização geográfica, pelo grau hieráquico ou pela estrutura organizacional. A construção do comprometimento coletivo, do respeito à ética, do melhor aproveitamento das individualidades e da união de esforços, é resultado um movimento amplo, desenvolvido por líderes e liderados. A confiança dos membros da equipe em si mesmos realimenta a força do grupo para novos desafios. As atitudes disseminadas e praticadas no cotidiano dão credibilidade ao sentido de solidariedade operativa que leva aos resultados desejados.
Empreender ações efetivas, definir objetivos claros e correções de rumo adequadas são ingredientes importantes de um grupo vencedor. Não existem mágicas. Praticar o básico, adotar o simples pode ser muito eficiente. Principalmente quando as pessoas são protagonistas, e não meros espectadores em seu ambiente profissional.

07 setembro 2006

ELEIÇÕES E INDEPENDÊNCIA

Como acontece em todo sete de setembro, milhares de brasileiros compareceram aos desfiles cívico-militares para a celebração da data símbolo da soberania nacional, que representou a independência brasileira do domínio imperial português.

As informações tradicionalmente repassadas
pelo modelo educacional vigente alimentaram a crença de que o nascimento do Brasil como país soberano esteve repleto de pompas e simbologias fantasiosas.

Diante da revelação desse evento de forma mais adequada à realidade e dimensão dos fatos, não se busca diminuir a importância histórica desse movimento político, início do reinado da família Orleans e Bragança, a sua superação pelos generais da república velha e suas mazelas autoritárias, até chegarmos à construção democrática atual.

O momento presente é de expectativa de avanços no sistema político, de crescimento econômico com diminuição das desigualdades sociais, de melhorias nascondições da educação, saúde e seguridade social para a ampla maioria da população.

É sensato supor que essas distorções não sejam eliminadas de imediato pelos vitoriosos no embate eleitoral, seja pela complexidade e diversidade dos problemas que se apresentam,
seja pela qualificação duvidosa dos escolhidos, a julgar pelos acontecimentos que se sucedem nas câmaras e assembléias em todo o país, e mancham a confiança otimista dos eleitores na via representativa e democrática de gestão do Estado.

Ainda assim, o cidadão tem sua oportunidade de participar das decisões futuras através do voto.

Se o sentimento de incredulidade popular nas instituições políticas é uma realidade, também é verdade que o sufrágio próximo é o melhor instrumento que a sociedade possui para ousar alterar o rumo dessas mesmas instituições.

Uma ousadia vigilante, uma esperança engajada, uma opção consciente. Esta é a nossa melhor expressão de independência.


A FORÇA DO POVO