20 junho 2010

A ERA DUNGA

A crônica jornalística viu poucas vezes na história recente um personagem tão rico em estereótipos e motivos para inspirar um texto.

 
Pejorativamente falando, tínhamos o presidente Fernando Collor e sua ministra – como é mesmo o nome...? – Zélia, no início da década de 90. Rendiam bons textos, sobre como apunhalar um povo inteiro, e fazer isso parecer normal.

 
Outro líder político – se é que podemos chamá-lo assim – que sempre arregimentou cargas de adjetivos de segunda classe foi Bush, o presidente americano que deu de ombros para a paz mundial, e fez as famílias americanas reviverem os dramas de guerra, que não viviam desde o Vietnam...

 
Atualmente, para nós, o personagem de todas as crônicas é Dunga. Não só de todas as crônicas, mas de todas as conversas de bar, de elevador, de padaria, de corredor do escritório, de motorista de táxi.

 
Nem ele, nem psicólogo algum, consegue explicar o motivo de tão intensa e permanente acidez. Tudo bem, ser técnico da seleção brasileira é uma responsabilidade enorme, todo mundo dá palpites, a mídia ao redor o tempo todo, o Brasil sempre entra com obrigações de vencer, tudo isso é verdade.

 
Mas o Dunga não sabia disso, ao assumir a seleção canarinho?

 
Sabia, e ao que parece adorou a idéia. Ele aproveita muito bem a oportunidade de destilar o seu mau humor em cada entrevista, em cada treino, em cada jogo. E o que motiva esse comportamento:

 
Revanche por ter sido injustamente responsabilizado pelo fracasso da copa de 90 como a “era Dunga”?

 
Sarcasmo por ocupar uma posição onde tantos treinadores competentes e experientes mereceriam estar, e mostrar bons resultados?

Deboche diante da impaciência do torcedor e dos jornalistas com a mediocridade do futebol que ele coloca em prática?

 
Ganhando ou perdendo, sendo campeões ou voltando antecipadamente para o Brasil, nunca iremos entender claramente o que torna um ser humano tão vitorioso, com carreira profissional de sucesso, de caráter respeitado, num verdadeiro Dunga, que de agora em diante significa mal humorado, rancoroso, ácido.

 
Mas de uma coisa sabemos: Dunga é a inspiração permanente para textos irônicos, cronistas atentos e receitas de como não se comportar diante dos outros.
 

01 maio 2010

VALORES E CONSUMO


Se você olhar para fora de você mesmo, irá encontrar uma interminável oferta de distrações, futilidades e guloseimas que lhe transmitirão a doce ilusão de que tudo se resolve num passe de mágica, ou como se saborear um pedaço de chocolate – verdade que é saboroso – tornasse a vida mais completa e significativa.

Nunca é demais lembrar que o sistema em que vivemos alimenta-se de consumo, e produção, para mais consumo. Tornar-se parte dessa sociedade é consumir – porque e para que ainda não sabemos bem...

Estou longe de ser um rebelde anti-capitalista ou um defensor da vida monástica, mas não posso ignorar que estamos nos afastando das mínimas reflexões que nos tornam diferencialmente humanos.
Comportamento ético, solidariedade, educação e formação do caráter das crianças, e até responsabilidade ambiental – que é a última moda em exposição aos holofotes – vão sendo postas em segundo plano, sob o poder de uma "religião" do consumo, da freqüência aos shoppings, da imediatização das novas tecnologias, da infindável busca de se identificar com a originalidade, que nada mais é do que uma repetitiva formavel busca de se identificar com a originalidade, rendendo-se a padronização do comportamento coletivo.

Experimentemos olhar um pouco para o interior de nós mesmos, onde a moda e a quantidade de objetos que temos não tem nenhum valor. É aí que encontramos a verdadeira identidade, e de onde podemos extrair o melhor, para nós mesmos e para os que nos cercam.

12 fevereiro 2010

O PAPEL PROFISSIONAL

A complexidade do ser humano, especialmente para nós, leigos, é formada por uma misteriosa e diversa quantidade de conceitos, teses, pesquisas de campo e argumentações teóricas.

Quando o assunto é o nosso papel profissional, as atitudes e os comportamentos que nos acrescentam ou nos destroem, o que vemos é uma grande quantidade de “gurus” capazes de promover entusiasmos aparentes, suscitando a falsa idéia de que palavras mágicas respondem nossas indagações profundas.

A difícil formulação de alternativas para as complicadas relações que se estabelecem no meio corporativo remete o enfrentamento das dificuldades para além das iniciativas eventuais, do empirismo utilitário, das convenções empresariais.

Na verdade, o centro irradiador de um ambiente menos hostil e mais prazeroso nas relações familiares, sociais, de negócios, é o próprio ser humano.

E o ser humano capaz de liderar pessoas, irradiar solidariedade e inspirar sonhos, precisa ser formado nas suas concepções mais íntimas, ser informado das suas limitações exteriores, e persistentemente buscar descobrir a si mesmo e seu papel nessas interações.

A possibilidade de aprofundamento do papel do homem na sociedade e dos desafios impostos pela sua atuação define o grau de habilidades e dificuldades que será encontrado. O balanceamento desses fatores é a fonte do stress contemporâneo.

Ser líder nos dias de hoje requer coragem, humildade, empatia e integridade. Coragem para agir, humildade para reconhecer falhas, empatia para aceitar o outro, e integridade para viver a própria essência.

Por tudo isso, ler “Terapia do Papel Profissional” de Paulo Gaudêncio, é mais do que uma leitura em busca de novos conhecimentos, mas um exercício de reflexão interior, de afirmação pessoal.

As nossas atitudes básicas em relação a vida e aos outros pavimentam nossa saúde mental, psicológica e física. Os valores que norteiam nossos caminhos podem definir a grandeza das nossas relações com as pessoas e o meio ambiente.

Conhecermos a nós mesmos. Desenvolvermos nossas habilidades. Compreendermos nossos semelhantes. Um bom aprendizado para nossa experiência humana e nosso desempenho profissional.

17 janeiro 2010

O DESAFIO DA VIDA

A vida por um fio. A vida num segundo. A luta pela vida. Só os fortes sobrevivem. Viver é uma grande aventura. Viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Viver a vida...

Para uns, a vida é uma alegria, um prazer. Para outros, um grande desafio. Para os que gozam os bons momentos da vida, e a levam leve, a vida é rica, numerosa. Para os outros, um fio de vida pode ter grandes e diferentes significados.

Um minuto pode ser o tempo para escapar de um desabamento, o suficiente para não ser atingido por escombros. Um segundo, pode ser o instante exato para evitar uma colisão num automóvel ou para não ser atropelado.

O tempo para se ganhar ou perder a vida não é previsível. O desafio de viver, entretanto, é constante. De algum modo, todos buscam dar um significado a vida, preenche-la com algo mais, do que o ar que respiramos.

Em tempos de catástrofes significativas, pensamos nos instantes, nas horas, nos dias em que tantos lutaram por suas vidas, e tantos outros, ajudam a salvar vidas. Alguns esperam bravamente por socorro, outros acreditam resolutamente no salvamento, todos querem viver.

Para cada um de nós, a vida é um grande desafio. Ganhar a vida, sustentar a família, vencer as dificuldades, superar os próprios limites, enfrentar os obstáculos, ultrapassar as barreiras.

Vencer na vida pode ser encontrar um emprego, ou alimentar os filhos, ou sobreviver ao terremoto ou ser encontrado em meio aos escombros.

A vitória de cada um pode ser comemorada alegremente, melhor ainda se estivermos ao lado da vitória dos outros. Para muitos, a vitória que almejam é muito pouco comparado ao que já temos, mas é muito mais significativa do que qualquer de nossos esforços, é a vitória da vida sobre a morte. Que cada um de nós façamos a nossa parte no grande desafio da vida.

01 janeiro 2010

ANO NOVO, ATITUDES NOVAS

Faz muito tempo, o país não iniciava um ano novo com tantas expectativas positivas, irradiando alegrias alvissareiras e esperanças espraiadas.

São justificadas as crenças no crescimento contínuo das oportunidades de trabalho, das possibilidades de consumo, das condições mais elementares para uma vida digna e segura.

O Brasil enfrentou a crise econômica mundial com intervenções adequadas e tempestivas, e se o que vivemos não foi uma “marolinha”, também é verdade que poderíamos ter sofrido conseqüências bem piores.

O ano de 2010 se inicia com uma agenda eleitoral complexa, tendo o cargo de presidente da república como vedete de uma disputa recheada de debates repetitivos, porém possivelmente reinventados pelo efeito Marina Silva, que colocará em pauta o tema ambiental.

No meio do ano teremos a Copa do Mundo da África do Sul, a última antes da nossa, em 2014. É tempo de os organizadores aproveitarem a última chance de acompanhar experiências do outros, evitar erros e se anteciparem na preparação competente.

Ademais, como sempre, continuaremos a conviver com as nossas mazelas, já conhecidas e nem sempre confrontadas com o vigor necessário:

a impunidade que favorece políticos e elites, que se utilizam de meios jurídicos infindáveis para proteger seus crimes;

as precárias condições das periferias das regiões metropolitanas, expostas ao medo e destruição a cada chuva mais intensa;

as repetidas chacotas que fazemos das empobrecidas redações dos vestibulandos nos concursos federais, que nos mostram a clara deficiência educacional que precisamos transpor para concretizarmos nosso desenvolvimento;

a lamentável constatação de que multiplicamos e universalizamos a oferta de procedimentos estéticos, obviamente lucrativos, enquanto a espera dos doentes nos hospitais e a falta de condições para o atendimento das populações que não podem dispor de convênios caros, denunciam o descaso da sociedade e dos governantes em relação a saúde pública.

O momento é de transformarmos expectativas em ações concretas, de usufruirmos de um ambiente favorável sem nos esquecermos do que falta ser feito.

Passados os tradicionais festejos da virada, brindemos o novo ano com uma atitude nova, com uma visão ampliada da nossa realidade, e uma alegria solidária, que irradie otimismo e compromisso com uma sociedade melhor.

18 dezembro 2009

NÃO NASCEMOS PRONTOS

A historia das nossas vidas não é uma seqüência lógica, não estava planejada exatamente da forma como aconteceu.

Todos os dias somos surpreendidos, desafiados, instigados a mudar nosso trajeto, nossos pontos de vistas, nossas certezas de ontem.

Assim é a coleta inspiradora dos textos de Mario Sergio Cortella, em “Não nascemos prontos” e em “Não espere pelo epitáfio”.

Os títulos dos volumes logo são anunciadores, convidando o leitor a uma reflexão sobre seu papel no mundo.

Mas a seleta reunião de crônicas escritas pelo autor vai além disso, passando por uma fina ironia sobre o cotidiano, mesclada com os saberes clássicos, de onde Cortella pinça frases que enriquecem suas narrativas, e nos ligam ao permanente e essencial na existência humana.

O que fazemos com o tempo que ganhamos, em nossa busca frenética para não “perdermos tempo”?

Porque não ensinamos o que sabemos, não praticamos o que ensinamos, não perguntamos sobre o que não sabemos? (Monge Beda)

Até quando nos acomodaremos com a síndrome de Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim?

Quando trataremos aquilo que é de todos, como nosso, não apenas nos momentos de usufruir, mas também quando é necessário cuidar?

Quando vamos parar de perguntar “o que vai acontecer?” e passaremos a nos questionar “o que eu posso fazer?” (Denis de Rougemont)

Uma coisa que posso fazer é convidá-los a essas reflexões, compartilhando-as sempre mais com nossos semelhantes, para que possamos inspirar existências mais prazerosas e conscientes.

13 novembro 2009

APRENDER

Todos os dias nós aprendemos algumas coisas. Em todos os lugares, em todos os momentos, encontramos os ensinamentos que vão alimentando a nossa existência.

Aprendemos com as coisas, através das suas formas e cores; seu peso e massa; seu valor monetário ou valor sentimental.

Aprendemos com os lugares, os ambientes; os raios de sol e de tempestades; o verde da matas e das águas.

Aprendemos principalmente com as pessoas.

As pessoas são originais, insubstituíveis, inigualáveis, impiedosamente diferentes.

Nunca poderemos ser igual ao outros. Não poderemos ter a mesma experiência, os mesmos talentos, as mesmas virtudes.

Aprender não é como abduzir ou incorporar.

Somos únicos, vivendo momentos únicos, trocando linguagens e sentidos especialmente vividos no momento presente.

Damos significado aos gestos, atenção às pronuncias, crédito aos olhares.

Aprender é um estado de espírito, próprio de quem sabe o que é mais importante, de quem inspira a criação dos saberes, de quem exprime muito, apenas ouvindo.

Aprender a aprender deve ser parte do ciclo da vida. O ar que respiramos para continuar existindo.

É a via inevitável do caminhar humano. Tanto melhor, se for ao lado dos que amamos, dos verdadeiros amigos, dos que descobrem a nossa humanidade.

Somos humanos para aprender. Aprendemos a ser mais humanos.

Em meio a tantas atividades, negócios, vontades, ambições, aprender é o que verdadeiramente importa.

Ser, crescer, evoluir, com os que nos rodeiam, colocando um ingrediente novo a cada dia, para o bem de todos nós.

12 setembro 2009

FAZENDO HISTORIA

A história de um profissional em uma organização é desenhada a partir de sua iniciativa pessoal, ou a falta dela, enfrentando a dinâmica dos acontecimentos conjunturais, da relação com os demais profissionais e dos resultados produzidos por essa interação.

Para que serve a historia de um profissional?

Para os objetivos práticos e imediatos do mundo competitivo, é um conceito dispensável, na maioria das vezes em que ele é citado. No aproveitamento do indivíduo para uma ascensão na hierarquia da organização, por exemplo, a “bagagem” adquirida no tempo tem sido cada vez mais desvalorizada pelos “caçadores de talentos”.

Entretanto, a organização (essa eu ouvi de um consultor num programa de rádio) não passa de uma figura jurídica “subjetiva”, sem existência autônoma, totalmente dependente da ação, das atitudes e dos comportamentos das pessoas que fazem parte dela, seja nas instâncias de direção, seja nas mais modestas atividades operacionais.

Quando o individuo acumula um determinado conjunto de habilidades, de condutas e de formas de comunicação com seus pares, isso tem importância para sabermos como são os indivíduos que constroem essa organização.

Não podemos imaginar que uma organização seja exemplar pela qualidade no relacionamento com seus clientes e fornecedores, se as pessoas desta organização exibam características antagônicas a essa imagem organizacional. O inverso também não é possível.

As iniciativas pessoais de uns, conflitam com o comportamento de outros, produzindo uma interação nem sempre harmônica. Isso se dá por atitudes intensivas em busca de resultados, em que sujeitos de funções dirigentes atuam sobre seus subordinados, ou em sentido inverso, quando colaboradores interrompem as atividades – uma greve, por exemplo.

O valor da história de um profissional está na sua capacidade de ser humano, integro, mesmo quando a dinâmica das relações internas e externas da organização lhe sejam hostis, ou não lhe favoreçam.

A “bagagem” é um ingrediente rico, quando organizações valorizam a perenidade de sua relação com a sociedade, e optam por construir solidez ao invés de imediatismos.

E mais do que isso, as pessoas que compõem as organizações são as mesmas que moram nas cidades, educam seus filhos, constroem famílias, formam grupos por afinidades esportivas, religiosas, políticas e tantas outras.

Como podemos imaginar que pessoas adotem comportamentos tão distintos para ambientes diferentes, circunstâncias diferentes ou momentos diferentes?

Como construir organizações perenes, integradas com a sociedade, se as pessoas que a constroem submetem sua integridade, seu caráter, sua história pessoal e profissional à sedução dos ganhos financeiros ou à adesão a idéias supostamente inovadoras, que destroem a natureza colaborativa das pessoas que fazem parte dessa história?

As pessoas, presentes ou não nas organizações, precisam de personalidade própria, coragem para ser, persistência para existir.

Com coragem e persistência compreendemos que nossa existência está comprometida com uma sociedade mais humana para nós, para as novas gerações, e para as organizações que sempre farão parte da história das nossas vidas.

03 junho 2009

DEMOCRACIA E ATITUDES

A experiência democrática dos últimos vinte e cinco anos retrata as enormes dificuldades da complexa formação da nova sociedade brasileira.

Na tentativa de explorar as melhores oportunidades em um regime de liberdades garantidas, os políticos e todo o aparato que sustenta as instituições de governo e representação, se auto preservaram, estipulando mecanismos novos ou mantendo os antigos conforme a conveniência.

Partidos foram fundados, re-fundados e multiplicados sob o manto do livre direito de associação e organização, porém descolados de qualquer vínculo ideológico, fragilizando a opção do eleitorado por esta ou aquela linha de governo.

Privilégios formatados no período autoritário perenizam a sensação de castas nas casas legislativas pelo país, como votos secretos, apropriação de verbas sem destinação ao interesse público, proteção jurídica extrapolando a condição necessária ao exercício do mandato, entre outras aberrações que afastam os eleitos do cidadão comum.

O desprezo pela ética acontece às vistas de uma eclética rede de meios de comunicação, que transita entre a palatabilidade das notícias, a repetição banalizadora, ou às vezes, o denuncismo intencionalmente elaborado para favorecer grupos, com aparente imparcialidade.

A desrespeitada "opinião pública" não constrange os que querem consumir recursos públicos em obras desencessárias, viagens improdutivas e distribuição familiar de cargos e salários.

A lógica eleitoral impede a construção de uma reforma política consistente, que aponte para uma elevação qualitativa do processo político-partidário no país. Adia a visão de uma democracia forte, em que despontem os verdadeiros estadistas, a serviço de um futuro mais longo que a próxima eleição.

Passada a euforia dos movimentos sindicais e populares da década de 80, pós regime autoritário, restam poucas organizações sociais de porte, enquanto se diversificam manifestações de grupos específicos, sem capacidade de influenciar mudanças significativas na realidade sócio-política vigente.

A sofisticação das mídias e dos modos de expressão individuais, contrastam com o declínio da sensibilidade social para o combate à fome, à exploração, ao desemprego estrutural, ao baixo nível da educação, saúde e habitação oferecidos à siginificativa parte da população brasileira.

É preciso construir com sentido de urgência, e a partir das pessoas, uma nova esperança criativa e solidária, capaz de modificar as atitudes na perspectiva de uma consciência global, humana e ambientalmente correta.







22 março 2009

AGENDA GLOBAL

Na agenda de todo governante sério, está presente o desafio de defender os interesses locais, dos efeitos destruidores da atual crise econômica.

Na premência de resguardar estágios avançados de desenvolvimento, líderes das grandes nações acenam com um espírito colaborativo nas discussões diplomaticamente importantes, mas não hesitam em proteger seus mercados, com regulamentações protecionistas.

A simples divulgação sistemática da destinação de bilhões de dólares ou euros para empresas ou instituições financeiras não será suficiente para dinamizar a economia global, numa escala que coloque o planeta em um novo ciclo de crescimento.

O resgate das condições internacionais de crédito depende principalmente da criação de uma expectativa de expansão das transações comerciais, que gere um fluxo sólido e crescente de divisas para todos os países.

As medidas de preservação dos mercados locais, alijando as negociações naturais de comércio exterior reduzem as chances de uma dinâmica de recuperação das nações em desenvolvimento.

Ao efetuar o controle estatal das importações, os países ricos exercem seu poder excludente, que deteriora as relações internacionais e contradiz o cântico globalizante dos últimos vinte anos.

É preciso que a comunidade internacional volte a celebrar a liberdade dos mercados, recriando condições para uma nova fase de desenvolvimento capitalista, com mais solidez e menos atitudes discriminatórias.

08 fevereiro 2009

DOM HELDER CÂMARA

Na data em que Dom Hélder Câmara completaria cem anos de vida, é possível recuperar parte da memória que vai sendo esquecida: a história da participação política de religiosos e leigos do catolicismo nos últimos cinqüenta anos.

Teólogos da libertação escreveram palavras nuas de fantasias, sobre as necessárias intervenções políticas e humanitárias, que transcendem o ritualismo religioso, para a transformação da vida dos pobres da América Latina.

Militantes das esquerdas e agentes da ala progressista católica uniram-se na defesa de migrantes, agricultores, favelados, menores de rua e outras categorias menos favorecidas da nossa sociedade.

A própria estrutura da Igreja, através da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), em certos momentos, viu-se contagiada pelo apelo libertário, pela defesa das liberdades democráticas, pela atuação engajada de sua ampla rede pastoral.

Nesse movimento humanitário organizado, Dom Hélder foi expoente de liderança religiosa, capaz de dialogar com as forças conservadoras da ditadura e ao mesmo tempo, defender os direitos humanos dos aviltados pelo regime.

Pacifista, Dom Hélder deixou o legado de alguns dos mais nobres valores humanos: solidariedade, compaixão e esperança.

12 janeiro 2009

CHUVAS E ESTRADAS


O ano novo começa com a existência de fenômenos naturais importantes, que marcam mais uma vez a história do sul do Brasil.

Em plena época de veraneio, quando turistas brasileiros e argentinos principalmente, invadem as estradas da região, a mobilidade é fortemente atingida pelo bloqueio de estradas importantes.

Um intenso regime de chuvas, conjugado com agitação atípica do mar – causada por um ciclone nas proximidades do norte de Santa Catarina – produziu enchentes em cidades as margens de rios, ao sul daquele estado.

Cenas de turistas em situação de isolamento e veículos submersos são mostradas junto com a dos moradores, atingidos em suas casas.

Rodovia fundamental na ligação dos estados da região sul, a BR 101 foi tomada em altura e volume pelas águas do Rio Araranguá, impedindo o fluxo de veículos entre as cidades de Araranguá e Sombrio.

A liberação da estrada aconteceu na noite da última terça-feira, ainda em situação precária, mantendo-se a lentidão no trânsito.

A perplexidade da opinião pública diante do impacto que as intempéries causaram no cotidiano das cidades próximas, levou a imprensa local a divulgar informações desencontradas, causando ainda mais confusão aos que dependiam delas.

Felizmente, contrariando previsões catastróficas, o desvio bem sinalizado pela Polícia Rodoviária Federal, serviu ao desafio de compensar razoavelmente a deficiência da BR 101.

Cabe às autoridades locais e federais a adoção de medidas preventivas às ocorrências dessa natureza, evitando-se o empirismo que domina a atuação dos agentes públicos e a disseminação de idéias alarmistas que comprometem o espírito colaborativo esperado para situações como essa.

12 dezembro 2008

TRAGÉDIA E AVANÇO

A tragédia climática que atinge as populações de parte dos estados de Santa Catarina principalmente, Rio de Janeiro e Espírito Santo, tornou-se a grande urgência nacional.

As regiões afetadas pelas chuvas excessivas, são exemplares de situações de degradação do solo combinadas com a ocupação urbana desordenada.

Estas situações transformam-se em geradores potenciais dos desmoronamentos de terra, transbordamento de rios e destruição generalizada que foram vistos nas ultimas semanas.

Eventos agudos de sofrimento das populações atingidas pelas chuvas podem ser recordados, em meados dos anos 80 – na cidade de Blumenau - e na serra fluminense em 2001.

A ausência de uma intervenção sólida dos poderes municipais na organização do espaço urbano, especialmente nas questões que envolvem saneamento e habitação, adiam as soluções e prolongam o sentimento de apreensão coletiva.

Nessas horas, desponta entre nós a solidariedade com as pessoas que foram arrancadas de suas casas, destituídas de seu patrimônio para preservarem a própria vida.

Uma mobilização ampla, da qual podemos nos orgulhar, como brasileiros.

É necessário avançar.

Precisamos incluir na agenda nacional, mais do que uma energia emocional positiva, que demonstra sensibilidade com as tragédias imediatas.

Trata-se de acumular experiências de gestão, conhecimento atualizado e planejamento de médio e longo prazo que contribuam para a modificação do modelo de urbanização concentrada.

Qualidade de vida não deveria estar relacionada apenas aos bairros e condomínios planejados para as classes mais favorecidas ou às regiões turísticas para a época de férias.

Existem pelo mundo afora, e mesmo no Brasil, exemplos de cidades estabelecidas com padrões superiores ao que é generalizado no país.

O momento é propício para a formação de uma nova concepção de vida urbana, onde os parâmetros de bem estar e sustentabilidade sejam valores coletivos e permanentes.

02 novembro 2008

DECLINIO AMERICANO


A posição de liderança que os americanos ocupavam no mundo contemporâneo vem sendo abalada continuamente, por acontecimentos que não podem ser refutados historicamente.

Desde a queda das economias fechadas e controladas pelo poder soviético, nos anos noventa, o mapa do capitalismo começou a ser significativamente redesenhado.

Rússia, Índia, e principalmente, a China, avançaram tecnologicamente, exploraram positivamente seu potencial de consumo, e tornaram-se referências mundiais em crescimento consistente.

Os europeus seguiram seu cronograma federativo, criaram uma moeda forte e reforçaram sua solidez institucional, elevando a importância do bloco no mercado mundial.

Dependentes do petróleo do Oriente Médio, os americanos se envolveram nas últimas décadas, em desgastantes conflitos, expondo seus homens ao fanatismo bélico dos iranianos, iraquianos e afegãos, contrariando a opinião pública interna e externa.

Para encerrar essa trajetória negativa para os negócios nos Estados Unidos, surge a crise bancária, resultado de uma seqüência de decisões malsucedidas, que fragilizaram seu sistema econômico.

A dificuldade em enfrentar os sintomas da perda de lastro das operações originadas dos empréstimos hipotecários, teve como conseqüência a vulnerabilidade de todas as instituições financeiras que de alguma forma atrelaram seus ativos a esses papéis.

O resultado é uma crise global de confiança na sustentabilidade do sistema financeiro mundial, desencadeada pela maior potência econômica, vista outrora como exemplo de eficiência e prosperidade.

14 outubro 2008

CREDIBILIDADE

A crise financeira cujos efeitos alastram-se pelo mundo inteiro, proporciona uma substanciosa reflexão sobre o papel da credibilidade em economia.

Credibilidade, como o nome diz, indica o status de quem, por trajetória consolidada ou reputação reconhecida, mereça crédito, seja nas suas ações ou afirmações, seja nos compromissos assumidos.

Embalados por um otimismo sobre a economia mundial dos últimos anos, acompanhado pela alta liquidez do seu sistema financeiro, os americanos desprezaram a receita insistentemente prescrita aos países em desenvolvimento, e fermentaram uma massa de créditos hipotecários de grande vulnerabilidade.

Ausência do Estado, aquecimento dos preços dos imóveis, falta de instrumentos de análise de crédito e altas nas taxas de juros, são os ingredientes de uma malsucedida expansão das carteiras de empréstimos imobiliários.

Expoentes do capitalismo mundial, os americanos já tinham espalhado pelo mundo todo papéis nascidos desse mercado vulnerável, pulverizando os reflexos de uma crise que se tornou global.

O gigante americano, com seu poder de influência relativizado após a abertura econômica de países como a China e a Rússia, com a ascensão dos emergentes e a solidez do Euro, ainda é capaz de exportar tensões de natureza econômica pelo planeta, antes voltadas aos assuntos geopolíticos.

As conseqüências da desvalorização dos imóveis financiados, e em seqüência das carteiras hipotecárias, geraram ambiente desfavorável que atingiu o sistema o financeiro mundial, contaminado pela dilapidação dos ativos lastreados por essas operações.

Governos do mundo inteiro, a começar pelos Estados Unidos, aceleram ações de recomposição do patrimônio dos bancos afetados pela crise, buscando recuperar em curto prazo sua saúde financeira, numa mensagem positiva aos mercados.

Mais do que recursos monetários, colocados a disposição tempestivamente pelas autoridades nacionais, trata-se de salvar a crença na lógica das premissas básicas de funcionamento dos bancos, reconquistando a credibilidade de todo o sistema financeiro.

02 setembro 2008

DECISÕES NACIONAIS

A recente participação do Supremo Tribunal Federal nos debates mais emergentes na sociedade é um sinal promissor para o avanço ético e cultural da população.

O poder judiciário, ao enfrentar as questões nacionais com o exercício nobre das suas capacidades intelectuais e sob a aura da legítima credibilidade da defesa constitucional, emana uma mensagem positiva para a convivência social.

Temas polêmicos estão sendo expostos à exaustão, mesmo quando chocam os costumes tradicionais, transgridem as conveniências políticas e questionam os dogmas religiosos.

A instância judicial máxima no país referendou o uso de células tronco nas pesquisas científicas, condenou o nepotismo político e a infidelidade partidária, além de defender por diversos meios a dignidade do cidadão.

Num país em que legislar é ato carregado de interesses localizados que não vislumbram o avanço da nacionalidade, destacam-se a soberania das decisões judiciais plenas de significado para o desenvolvimento permanente da democracia.

08 agosto 2008

CONTRADIÇÕES E SUBDESENVOLVIMENTO

O aperfeiçoamento da convivência social no Brasil requer o enfrentamento de seus vícios históricos, de suas mazelas autoritárias, de seus estereótipos sociais.

Há pouco, comemoramos os quinhentos anos da presença européia na “Terra do Pau Brasil”, quando se concebeu a possibilidade de transformar essa vastidão de riquezas naturais habitadas pelos índios em uma província modelada pela inspiração colonizadora do velho mundo.

Passado meio século, gostaríamos de poder contabilizar reais avanços civilizatórios, que enchessem de orgulho os descendentes de nossos “descobridores”, para podermos freqüentar com altivez o clube dos países desenvolvidos.

Em meio a quase uma década de tímido crescimento econômico, nosso país amarga ainda a desonra de enormes contradições internas, cujos sintomas nos remetem ao primitivo, ao selvagem, ao truculento.

Alguns estados e muitos municípios ainda são governados como capitanias hereditárias, sujeitando cidadãos à arrogância e ao descaso com o bem comum.

A educação formal derrapa na escassez da qualidade e no despreparo dos abnegados professores, que idealizam para ensinar e sofrem para sobreviver.

As iniciativas públicas de transporte urbano são preparadas para o desempenho da indústria automobilística e não para o conforto e mobilidade das pessoas.

E as prisões, destino dos atingidos pelas políticas de segurança, são amontoados de humanos à espera de oportunidades de fuga ou entregues à violência dos “chefes” de gangues organizadas.

A salvo dessas condições catastróficas, membros das elites políticas e financeiras gozam de melhor sorte, quando penalizados por todo tipo de falcatruas e assaltos aos cofres públicos.

Instituições governamentais e poderes constituídos defendem a honradez e a integridade de seus pares, que por “deslizes” morais são submetidos a força policial engendrada desde sempre para punir os mais humildes.

O estarrecimento com tratamentos normalmente adotados nas prisões dos homens comuns e a interminável munição jurídica que os livram do cárcere, delatam a face classista da segurança pública.

Alheios a ojeriza popular, autoridades distantes do mundo real fazem valer a proteção do “status quo”, em prova de indisfarçável conivência e omissão.

A categoria de país subdesenvolvido não será superada apenas pelas estatísticas frias dos resultados comerciais, mas principalmente por condições mais evoluídas de igualdade social e convivência ética.

É preciso um enorme esforço humanista, uma exemplar afirmação das condutas positivas, para que num futuro não muito distante possamos harmonizar o crescimento material e o desenvolvimento de uma identidade brasileira respeitada.

08 julho 2008

A REDE E O HOMEM

A recente pane no funcionamento da Internet traz à luz uma diversidade de indagações sobre o presente e o futuro das atividades humanas.

Há não menos que quinze anos, sobrevivíamos muitos, sem a compulsiva presença dos atuais meios tecnológicos de comunicação mais populares: internet e telefonia celular.

O nostálgico contato humano das corporações de comércio e serviços foi substituído pelas “plataformas interativas” e seus atendentes anônimos.

O celular não aproximou as pessoas, mas possibilitou uma comunicação instantânea e ampliada em todas as direções.

A rede mundial de computadores – popular “internet” – tornou-se o oxigênio indispensável para uma geração que joga, brinca, fala e entende-se neste novo universo.

Serviços públicos, bancos, pessoas e organizações dependem dessa via imaginária para andar em frente e realizar seus propósitos.

Difícil imaginar o que foi construído no passado sem os benefícios e imediatismos dos sistemas contemporâneos.

Somente se explicam tais feitos pela capacidade de realização do homem, que não desanimando frente às dificuldades, impôs-se a construção do progresso.

O momento é de reflexão sobre a imperativa atitude humana sobre o modo de convivência e desenvolvimento que se quer construir.

Alerta para a indelegável responsabilidade individual que permeia todas as relações e negócios, independentemente das suas generalizações tecnológicas.

Em qualquer tempo, é o homem, através das suas decisões e ações, que forja o futuro da sociedade.

12 março 2008

COLAPSO VIÁRIO

O colapso eminente do sistema viário de São Paulo simboliza o que existe de mais perverso em matéria de deterioração da mobilidade urbana e o problema precisa ser enfrentado com competência técnica e gestão governamental eficaz.

A lógica da metrópole que emana poder econômico, que concentra aglomerados populacionais e que respira agressividade ao meio ambiente sucumbe a cada dia.

Os números alarmantes dos rotineiros congestionamentos a que estão expostos mentes e pulmões de milhares de pessoas soam como um hino diário à insuficiência da gestão pública diante da grandeza das dificuldades que precisam ser superadas.

Teóricos de soluções rápidas não são bem-vindos ao debate urgente que toda a coletividade precisa fazer e que deve incluir não só a imolação contundente das responsabilidades alheias, mas também a coragem das nossas contribuições generosas.

Discrepâncias de fluxos mal estruturados que privilegiam os veículos individuais e atormentam os usuários dos meios de transporte coletivos divergem das intenções bem formuladas dos planejadores governamentais em seus programas quadrienais.

Hábitos individualistas de locomoção são estimulados por um crescimento da oferta sem precedentes na indústria automobilística, que incorporam centenas de novos veículos ao espaço metropolitano diariamente.

O crescimento desordenado das habitações irregulares e precárias, alimentado por um êxodo persistente das regiões menos favorecidas do país nos últimos quarenta anos acentuam a complexidade dos diagnósticos necessários.

A pior atitude no momento é a da introspecção descompromissada. Tão importante quanto opinar e participar de decisões abrangentes num contexto de variáveis tão complexas é a decisão de combater a violência das ruas contaminadas pela ambição indiferente.

É preciso ceder um espaço na via para quem atravessa, um banco confortável para um carona, um tempo de descanso para a cidade que não para.

A alternativa possível não está em nossas mãos. O caos do presente ruma para o extremo inevitável: o espaço finito em transbordamento paralisante.

Ainda é possível evitar. Façamos a nossa parte.

04 fevereiro 2008

ECONOMIA E CARNAVAL

Ainda não estão totalmente esclarecidos os desdobramentos da crise econômica que atinge os Estados Unidos e repercute em todo o mundo, inclusive o Brasil.

A recessão da secular grande potência mundial causa desconforto na sua população acostumada à absoluta prosperidade nos últimos sessenta ou setenta anos.

Da vulnerabilidade das carteiras hipotecárias à elevação dos índices inflacionários, os efeitos da crise acompanham diminuição do consumo e a conseqüente queda nas importações mundiais.

Anestesiados pela alegria carnavalesca, os brasileiros contam com a eficiência dos membros da área econômica do governo, para que protejam a solidez e credibilidade conquistadas nos últimos anos, à custa de outras prioridades sociais.

A continuidade do crescimento econômico deve ser posta à prova pela primeira vez em um momento global desfavorável, motivo pelo qual os mercados acionários esboçam reações de justificada apreensão.

Embora não dependa das importações americanas, o Brasil sofrerá os efeitos colaterais das restrições ao consumo nos Estados Unidos, que atingirão o mundo inteiro graças ao significativo volume que alimenta os mercados mundiais.

O momento é de concentração nas potencialidades do nosso território, ritmo e harmonia na nossa capacidade de produzir com escassa infra-estrutura, e sensibilidade da comissão de frente da equipe econômica para percorrer o melhor caminho em direção à uma nova fase de estabilidade.

21 janeiro 2008

NOVA CIDADE

A qualidade de vida na cidade está diretamente relacionada à quantidade de vidas humanas que usufruem e interagem nessa mesma cidade. É inescapável a qualquer debate sobre o urbano, o fenômeno secular da concentração populacional.

Recente pesquisa da ONU anuncia que em 2007, a população urbana ultrapassou a metade do universo populacional mundial, ou seja, pela primeira vez, a população urbana superou a população rural.

Para nós, habitantes da América Latina, o cenário é ainda mais expressivo: 75% da população concentram-se nos grandes centros urbanos.

Esses números, por si só, constituem um diagnóstico negativo para o avanço do desenvolvimento humano e da prosperidade coletiva.

A convivência social que se estabelece nas grandes cidades acumula ingredientes de primitivismo e selvageria que não acompanham as inovações tecnológicas e as descobertas científicas do nosso tempo.

O anonimato das multidões sugere a desatenção às regras de conduta mais elementares. As vias e espaços congestionados, a ocupação intensiva do solo e a escassez de serviços públicos indispensáveis para grande parte da população alimentam a cultura das diferenças de classe e a profusão da violência e da contravenção.

A agressão contínua ao meio ambiente em seus diversos elementos necessários a sobrevivência no planeta afeta a saúde dos nossos dias e compromete o habitat das próximas gerações.

O planejamento urbano sério é uma necessidade urgente que transcende a atuação dos políticos governantes em suas carreiras ensimesmadas, e requer administradores públicos que compreendam o papel histórico e antropológico de suas intervenções na vida coletiva.

Exemplos isolados de participação popular nas decisões políticas e de organização estratégica do espaço público sempre fortalecem a idéia de que é possível tornar as metrópoles mais aconchegantes e humanas.

Constatar que Bogotá figura entre as cidades que conseguiram fazer com que a inclusão social se tornasse uma realidade mais forte que a violência da indústria da droga, que Nova York tenha se transformado em exemplo de cidade segura, que Porto Alegre tenha mostrado sua democracia participativa ao mundo inteiro através do Fórum Social Mundial, e que Petrópolis tenha passado por um projeto de reurbanização que valorizou os pedestres frente ao uso excessivo do carro particular, são alentos para quem procura fortalecer o equilíbrio da vida em sociedade.

Uma nova cidade, um novo mundo é possível. O caos urbano não é inevitável. A formação de uma civilidade urbana mais elevada não é uma fantasia. Construir o futuro é uma missão contemporânea, indelegável e decisiva. Para todos nós, que já partimos da experiência de viver o presente, sobreviventes do planeta azul.

26 dezembro 2007

ENTUSIASMO OPOSICIONISTA

A derrota do governo no senado, que resultou na impossibilidade de renovar a vigência da CPMF, foi o grande assunto nacional das últimas semanas.

O episódio revelou enorme fragilidade do governo, quando se trata de obter aprovação dos parlamentares para ações de governo consideradas imprescindíveis para o sucesso das suas políticas.

É positiva a constatação de que os poderes exercem de forma equilibrada suas atribuições, eliminando a hipótese de que os governantes imponham suas decisões sem contraditório.

Entretanto, a percepção legítima da sociedade é que o governo foi derrotado para que tenha dificuldades em obter recursos para operar os seus programas, com o objetivo de desgastá-lo politicamente.

O modus operandi da ação oposicionista, contando com o poder de articulação e convencimento do Ex-presidente de República, acompanhado de declarações excessivamente entusiasmadas após o resultado da votação, auto-denunciaram a falta de rigor técnico e interesse público ali empregados.

A manutenção ou não da CPMF – um imposto de fácil cobrança, de massa tributária abrangente e de difícil sonegação – deveria ser discutida em paralelo a construção de um novo modelo tributário, que desonerasse produção e emprego, e tivesse a ousadia de descomplicar o arcabouço normativo do modelo atual.

Explicações desencontradas dos líderes governistas ora apontam conseqüências catastróficas da repentina diminuição de recursos, como corte de investimentos, veto aos aumentos de salário do funcionalismo e aumento dos juros para captação de reais pelo tesouro, ora minimizam os efeitos, desqualificando as comemorações dos adversários.

Natural que o governo apresse-se em acalmar os mercados investidores, desprezando qualquer sugestão de vulnerabilidade das contas públicas, procurando manter os elevados níveis de confiança internacional que foram construídos nos últimos anos.

Além disso, os bilhões não arrecadados futuramente, de alguma forma estarão em grande parte, disponíveis para o consumo, gerando novos empregos e impostos.

A lamentar, a constatação de que as contendas partidárias e os interesses particulares ditam o rumo das decisões mais importantes do país, e que a representação parlamentar da sociedade careça de atitude comprometida com o presente e o futuro do país.

03 novembro 2007

EXISTÊNCIA URBANA

Os carros trafegam apressados, como se alguma velocidade a mais fosse fazer diferença em meio aos obstáculos que ainda teriam que ser superados para a chegada ao destino: o local de trabalho desses entusiasmados motoristas, ansiosos por ultrapassar seus concorrentes, seus pares nessa corrida urbana mal organizada e sem podium no final.

Os movimentos são bruscos, as sinalizações ignoradas, a educação coletiva evolui de modo bem mais lento, sufocada pelo desejo de vingança dos ultrapassados, pela ansiedade dos que se arrogam vencedores desse trágico esporte.

No alto das laterais das vias, já não se lêem mais as placas de publicidades coloridas de outrora, desapareceram os painéis luminosos, ficaram as paredes dos prédios, escuras, expostas, pixações à mostra...

Nenhum vendaval ou acidente da natureza, senão a criatividade dos poderes públicos, ávidos em implantar mudanças nas paisagens, em marcar presença na memória das pessoas, em desfazer o que está feito para reinventar o que ficará por fazer.

Ao largo das avenidas, concentrados nos semáforos, ocupantes de um espaço desvalorizado, sem lugar para engendrar arquiteturas. Feito um pit stop de fórmula um, aproximam-se dos carros, vendem, pedem, limpam, fazem malabarismos, assustam, assaltam, sob olhares ansiosos dos pilotos, digo, motoristas.

Reaparece a luz verde, retornam à esquina, desviando das arrancadas instantâneas, desafiando perigos repetidos a cada pausa de trinta segundos.

No interior dos “cockpit” muitos permanecem alheios à sorte de outrem, que apostam sua sobrevivência nessa hostil intermitência de tráfego. Outros se penalizam, mas seguem adiante, conformando-se com a miséria, em angustioso desafio à indiferença generalizada.

O convívio com essa realidade acompanha o trajeto por alguns segundos. Reflexões superficiais nos fazem despertar a humanidade interior escondida. Em instantes, a consciência das aspirações imediatas nos conduz de volta a normalidade individualista.

Também a postos para a largada estão os ônibus, quase sempre lotados de esforçados combatentes de um esporte radicalmente afeito às metrópoles: desembarcar ileso e íntegro no destino programado.

As regras para os ônibus ora são privilegiadas com faixas exclusivas, ora são dificultadas por um sistema que beneficia o automóvel particular. Os motoristas expostos a enormes jornadas de trabalho enfrentam com vigor as barreiras inumeráveis de uma rotina de passageiros, tráfego intenso, dias que não terminam nunca.

Não ficam atrás os trens metropolitanos e os metrôs, escondidos, sob o solo, ou segregados por trilhos e muros, em rotas próprias, entupidos, superlotados, em ofensiva situação de desconforto.

Os dias já nascem cobertos de neblina, ou de densa poluição. O sol esconde-se na espessura de nuvens intrusas ou de gases insistentes em atingir a fragilidade das nossas vias, as respiratórias, é claro.

Em lugares diferentes percebemos que o Sol não nasce para todos. Ele desafia os prognósticos ambientais e descobre algumas fendas para enviar seus raios desfigurados, mas comemorados alegremente por quem já não os vê com freqüência.

Tem gente que gosta dessa sombria atmosfera, e se realiza no vai e vem das pessoas e dos veículos, do sol e da chuva, do dia e da noite, da neblina e da fumaça.

Tem gente que protesta, que desafia, que se ilude com as mudanças, que se revigora com a esperança, que se distingue da maioria.

Muitos seguem a multidão, brincam quando podem, pensam quando querem, sentem quando calam.

O dia promete ser longo, tarefas, problemas, clientes, mais tarefas, mais problemas, mais clientes...

Os indivíduos vão se encaixando nas turmas, reunindo grupos, formando equipes, dividindo aspirações coletivas, somando esforços pessoais, segregando ambientes familiares, inventando o seu novo mundo do dia presente.

O trabalho parece ser a razão da existência, ou o motor das energias humanas colocadas em ação, na soma dos indivíduos que formam a sociedade.

Mas cada um não percebe o quanto sua contribuição para o todo foi importante.

Também não percebemos que aquele “pit stop” das esquinas da metrópole reflete o nosso isolamento das verdades indigestas.

Assimilamos as nossas dificuldades cotidianas e revelamos nossa tolerância ao abismo que separa realidades inconfundívelmente avessas.

Seguimos para um futuro desejado e acreditamos em amanhãs melhores, sem a indispensável construção do caminho que os tornarão possíveis.

Invertemos hábitos sociáveis e simples para alimentarmos a linha divisória que nos protege da miséria assustadora dos que labutam por mínima e hostil sobrevivência.

Inventamos uma cidade alheia às suas patologias urbanas, indiferente à agressividade estética das periferias, fortificada por suas intransponíveis linguagens para os que não falam o idioma culto dos afortunados.

No fim do dia, repete-se o caos invertido, o regresso cansativo dos caminhos congestionados e dos veículos desgovernados.

Voltamos para as futilidades domésticas, assistimos aos telejornais que repetem as mesmas cenas de sempre, recheadas de cumplicidade midiática, de sensacionalismos mórbidos.

Habituamos a incorporar sensações de personagens irreais, assumimos como nossos os seus desejos e pontos de vistas, e desligamos a tela da vida em troca da fantasia extasiada das belezas de existências artificiais.

E nos revigoramos sempre para enfrentar a caminhada persistente em busca das nossas nem sempre reveladas aspirações pessoais.

Seguimos com nossas certezas e forças, desafiando experiências adversas e superando barreiras de difícil ultrapassagem.

Nossa consciência pavimenta uma longa estrada, que vai sendo desenhada pelas adversidades, pelas experiências, pelas pessoas que nos acompanham, pelos que nos ensinam, pelos que nos atrapalham...

Viver é para todos. Crescer é para os que querem marcar a existência por sua própria personalidade, por uma contribuição a essa universal singularidade sobre o que é ser humano.

E a minha humanidade é parte de toda a humanidade. Nem mais, nem menos.

28 outubro 2007

MUNDO CORPORATIVO


O mundo corporativo é uma criação da sociedade moderna.

Externo ao mundo real, o mundo corporativo tem leis próprias que não são escritas, valores que não estão explícitos, lugares que não se conhece.

No mundo corporativo as pessoas estão expostas a reações surpreendentes, a ilações desconectadas com a realidade dos fatos, a emoções atípicas para despojamentos raros.

Bondades são obscurecidas pelas entranhas burocráticas, crueldades são revestidas de “razões estratégicas”, relacionamentos são instrumentalizados para ambições mesquinhas.

Adultos carecem de maturidade na convivência com superiores, que se embriagam na acidez de solitárias decisões.

Concepções e princípios são superados pela ansiedade monetária e pela imediaticidade das quantidades.

Integridade e humanidade padecem sob a rigidez das prioridades e sob o império da impessoalidade.

Sobreviver no mundo corporativo requer força pessoal abundante, que se exprime na liberdade de pensar, na iniciativa de fazer e na nobreza de transigir.

São fortes os que deixam prevalecer sua condição humana, desafiando a sedução dos aplausos e manipulações das aparências.

E constroem para si e para os que os rodeiam uma nova atmosfera de convivência ética que por si só inspira resultados sustentáveis.

A possibilidade da existência no mundo real e no mundo corporativo, abolindo os papéis superficiais e revelando a personalidade íntegra, é um caminho para o fim das esquizofrenias contemporâneas, que transformam os ambientes de trabalho em pesados fardos.

Então esse mundo paralelo estará superado por uma realidade promissora em que ética, humanidade e desenvolvimento econômico prosperarão unidos.

08 outubro 2007

PRÁTICAS E ANTÍDOTOS

Multiplicam-se as denúncias das revistas semanais sobre as irregularidades cometidas pelos personagens mais influentes da cena política do país.

Na obsessão desmedida pelo poder, a ética e a responsabilidade social são despudoradamente relegadas a segundo plano, dando vez ao exercício da vingança pessoal, do loteamento partidário dos cargos públicos, da utilização privilegiada da máquina estatal, da negação da honradez republicana.

A prática corrente da distribuição de funções de confiança em troca de posicionamento favorável nas votações legislativas desvirtua as atribuições do Congresso, e instala um mercado sombrio de decisões institucionais alheias à sociedade.

O péssimo hábito de se minimizar os crimes de natureza eleitoral sob o pretexto da subjetividade da atividade política desacreditam as agremiações e seus representantes, desestimulando o exercício dos direitos democráticos.

Não deixa de ser emblemático que dois políticos acima das suspeitas convencionais tenham sido afastados por seus pares da Comissão de Constituição e Justiça quando realizavam sua tarefa com dedicação inarredável ao caminho da verdade e da legalidade, independentemente das opções partidárias.

O episódio estampa as práticas vergonhosas - exceções à parte - que corroem o sistema político vigente transformando-o numa feira de negócios inescrupulosos e descompromissados com os interesses da população.

Rompendo o ciclo de percepções negativas, decisão recente do Supremo Tribunal Federal consolidando a fidelidade partidária aponta na direção de um melhor aproveitamento do voto do eleitor.

Longe de significar o ápice das expectativas de uma ampla reforma política, é uma notícia promissora, levando-se em conta os costumes locais, em que a ideologia partidária desaparece diante dos interesses pessoais e corporativos.

O voto é instrumento democrático importante, mas precisa ser acompanhado de significativa transformação das relações sociais, em que os valores humanos permanentes se sobreponham ao lucro fácil, às vantagens imediatas, aos comportamentos que alimentam as desigualdades.

O antídoto para tamanho desperdício institucional é o senso de responsabilidade social que deve haver em cada um de nós, no exemplo das atitudes cotidianas, na formação das novas gerações, no compromisso com a comunidade, com o país e com o meio ambiente.

24 setembro 2007

ATENDER E CONVIVER


As pessoas que solicitam nossa atenção no dia a dia são portadoras de uma quantidade de desejos, relações pessoais, aspirações e concepções.

Cada um de nós, ora está no seu horário de trabalho atendendo a um cliente, ora está numa repartição, numa loja ou qualquer outro estabelecimento como o cliente, o usuário, o próximo da fila.

Quando estamos do lado de lá pensamos nas diversas razões que transformaram nosso tempo em refém de terceiros, alheios aos nossos problemas e solicitações.

Gostaríamos que nos apresentassem algo mais do que um “mais alguma coisa?”, que não tem outro significado senão o de encerrar o contato para dar lugar ao cliente seguinte.

Se vamos frequentemente aos mesmos lugares, e neles os problemas se repetem, porque não são resolvidos? Será que ninguém pensou nisso, ou deveríamos reclamar formalmente?

Do nosso ponto de vista, o que temos para resolver é o mais urgente, o mais importante. Ou alguém que retira uma senha ou entra numa fila pergunta se os outros que ficaram para trás tem necessidades prioritárias?

Ainda assim esperamos ser tratados com distinção única, porque não somos iguais ao outros, somos especiais, e o nosso atendimento requer uma explicação singular, adequada para o nosso caso.

Acreditamos naquilo que experimentamos com sucesso, e voltamos com convicção, perdoando detalhes negativos, se o principal estiver satisfeito.

Por essas razões, e para não criarmos falsas expectativas, vamos experimentar isso do lado de cá.

Quando atendemos os outros empenhamos nossos esforços nisso, ou colocamos diversos obstáculos que transmitem desprezo e indiferença?

Identificamos as pessoas como elas são, como elas se apresentam, ou as tratamos como parte de uma fila, de um público?

Interpretamos as críticas como mensagem de quem deseja nossa qualificação ou criamos resistência preconceituosa?

Concluímos nosso atendimento com expressões que reafirmam o que ficou acordado e nosso agradecimento por nos terem escolhido?

Trabalhar para pessoas requer talento e humildade, força e generosidade, energia e criatividade. É a conseqüência natural de sermos humanos, e vivermos encontrando pessoas todos os dias, todas as horas, o tempo todo.

Alguém imagina ser possível viver de outra forma?

25 agosto 2007

OS OUTROS


Uma das aspirações coletivas mais pronunciadas dos últimos tempos é a chamada “busca dos culpados” e a “punição dos responsáveis”.

Excluímos a nós mesmos, e concluímos que “os outros” são os potenciais protagonistas das mazelas, das falcatruas, das imoralidades, da falta de civilidade, da arrogância.

“Os outros” educaram seus filhos para disputar espaços, sobressair-se aos demais, sem medir efeitos nas relações solidárias, na convivência fraterna.

“Os outros” escolheram governantes e representantes ineptos, e abdicaram de participar, acompanhar e exigir aperfeiçoamentos na construção de uma sociedade mais justa.

“Os outros” aproveitaram-se de nossa passividade para furar filas, ultrapassar em manobras perigosas, ocupar as calçadas, ameaçar nossa integridade.

“Os outros” construíram barreiras intransponíveis que dividem ricos e pobres, velhos e novos, socialmente cultos e mestres da sobrevivência.

“Os outros” usufruíram de seu status para obter privilégios, para alavancar carreiras, para estampar vantagens.

“Os outros” fingiram-se de cordeiros para correr como lobos, e reinar como leões, para desgosto de nossa apatia enciumada.

Não fossem “os outros” viveríamos mais felizes em nosso sonho alienado, uma fantasia criada pela nossa teimosa mania de ver o mundo apenas do nosso ponto de vista.

Estaríamos livres da cumplicidade irrevogável de sermos pessoas deste tempo, deste lugar, dessa história.

Somos parte de uma sociedade carente de valores e princípios, ávida por desenvolvimento humano, sedenta de exemplos de caráter e liderança.

Transformar as cenas que denunciam nossa incompetência em conviver solidariamente numa realidade promissora de valorização da ética e prosperidade social é tarefa cotidiana e coletiva.

Então, culpar e punir estarão recheados de significado, como partes de um aprendizado contemporâneo, para manutenção de uma sociedade mais madura e mais livre.

23 julho 2007

LIÇÕES DA SEMANA

Imagens chocantes, depoimentos desesperadores, opiniões emocionais, discursos burocráticos, realidade devastadora.

A semana do maior acidente aeronáutico brasileiro é o ápice de uma repetitiva cadeia de desencontradas ações e estapafúrdias explicações, na quase aniversariante crise aérea nacional.

Da impossibilidade de explicar acidentes aéreos à incapacidade de gestão da infra-estrutura da aviação comercial, seguem-se uma sucessão de erros, manifestações descabidas das autoridades governamentais, decisões descoladas da realidade e miopia dos interesses comerciais.

A desfaçatez dos gestos dos dirigentes diante da fragilidade das pessoas que à própria sorte, sentiram na pele o efeito dramático da desgovernança é assustadora. A desconsideração ante a consternação que tomou conta da sociedade indigna a todos.

Noutro lado da explosão consumista dos vôos domésticos, estão as empresas aéreas e sua voracidade na obtenção de lucros resultantes da exaustão das rotas, da concentração das conexões em Congonhas, da redução obsessiva de custos, da construção artificial de uma imagem voltada para a atenção ao cliente, que se desfaz facilmente ao primeiro pedido de informações, que não se sustenta no primeiro sinal de dificuldade.

É certo que não visualizamos a totalidade dos interesses atingidos desde o acidente do avião da Gol, ano passado, quando se tornaram vilões os pilotos americanos, os controladores, os militares, os governantes.

Num país com tantas carências e desigualdades sociais, com aspirações ao crescimento econômico, pensar a infra-estrutura de transportes de modo amplo, com planos consistentes e de longo prazo é tarefa urgente.

A manutenção dos aeroportos, a eficácia dos centros de controle do espaço aéreo, a efetividade dos controladores, são atribuições mínimas para a sobrevivência de um sistema de transporte aéreo minimamente respeitável.

Alternativas de transportes com trens rápidos, desconcentração das rotas aéreas, interiorização do desenvolvimento fazem parte um movimento indispensável de melhoria da qualidade de vida nas metrópoles.

O enorme paradoxo que se evidencia nessas situações de crise é o conflito entre a crescente participação política e exercício da cidadania pela população e a despudorada conveniência das elites e dos políticos em emitir sinais descompromissados em relação aos fatos concretos.

A reincidente ausência de informações, a omissão e a fragilidade das autoridades para tomada de decisões que defendem o interesse público, a conivência com a popularização desenfreada do transporte aéreo independente de uma fiscalização e estrutura compatível com a demanda estimulada pela guerra de preços são ingredientes sempre presentes nessa interminável e problemática relação entre o governo, as empresas aéreas e a população.

As lições da última semana foram muito duras. Se vamos ultrapassar a perplexidade e a comoção para atitudes melhores na ética comercial e nas funções públicas só o tempo irá dizer. É o mínimo que podemos fazer em nome dos que perderam suas vidas em conseqüência da passividade nacional diante de tão significativos desafios.

07 julho 2007

HUMANAMENTE POSSÍVEL

Vivemos no mundo do trabalho.

Nele empenhamos nossas esperanças, carregamos nossos esforços, lapidamos nossas ambições, entregamos nossos melhores talentos.

Não sem motivo, temos pouco tempo para comemorar, para almoçar em família, para ler um livro, para tomar sol, para correr na praia.

Mas essa não é a pior constatação.

Para almejarmos construir um país que seja minimamente melhor do que hoje para nossos filhos e netos, não basta nos indignarmos com as diárias notícias negativas dos telejornais.

A ousadia de difundir e a coragem de praticar a ética, a solidariedade, a preservação do meio ambiente, a defesa da paz, precisam fazer parte da nossa atitude cotidiana.

A teimosia da honestidade e a perseverança da honradez não podem sucumbir aos desejos imediatos que se locupletam na arrogância.

Disfarçar as misérias da indiferença urbana, dar as costas ao abandono dos sertões não assegura os padrões das exigências estéticas globalizantes.

Nenhum crescimento econômico seduzirá por si só as nossas mentes, transformando-as em depositárias dos valores humanos essenciais.

Evoluir e repensar tudo, todas as coisas, todos os mitos, os preconceitos, os sinônimos de sucesso, os sabores do poder, isso é urgente.

Criar o novo, para sermos melhores, com a riqueza do significado do que é ser melhor.
Humanamente possível.

15 maio 2007

RELIGIOSIDADE

Concluída a visita do Papa Bento XVI, podemos dimensionar o papel da religiosidade na formação da identidade contemporânea do povo brasileiro.

País que acolheu uma diversidade de etnias e povos, o Brasil mistura as mais diversas crenças religiosas no seu amplo território, que além de enriquecerem a cultura popular, contribuem na consolidação das idéias, dos valores éticos e da pluralidade ideológica.

O catolicismo tradicional apoiado em uma história republicana menos democrática que a atual firmou-se como a religião oficial. Arejada pelos movimentos populares e sindicais, a Igreja Católica assistiu parte significativa do clero mergulhar na ação histórica e política, participando ativamente de mudanças sociais, sob a inspiração da Teologia da Libertação.

Após uma ressaca de ativismo de esquerda, e alertada pela perda expressiva de fiéis para outras denominações evangélicas e pentecostais, a nova igreja católica aposta em inovações midiáticas moderadas por uma teologia do tipo “volta às origens”, que caracteriza o papado atual.

O modo eclético da sociedade brasileira se relacionar com as religiões contrasta com a tentativa de se impor um dogmatismo excessivo, ao mesmo tempo em que se fragiliza a fidelidade ao culto de origem.

Por outro lado, essa nação repleta de ensinamentos espirituais adota lideranças políticas pouco comprometidas com valores morais, e não podemos desvinculá-las daqueles a quem representam.

Da maioria católica não rotulada por sua opção religiosa, às bancadas evangélicas, uma maioria significativa de nossos políticos aproveitou o desvio dos holofotes de Brasília para a visita do Papa em São Paulo para aprovar aumento salarial aos congressistas, que atingirá também o Executivo, e deve beneficiar também os mandatários das assembléias legislativas e câmaras municipais pelo país.

A sociedade em que vivemos carece de atitudes coerentes com os valores defendidos, com os ensinamentos difundidos, com as crenças adotadas.

A visibilidade obtida pelo líder do catolicismo em sua visita ao Brasil, não garante uma adesão da imensa população que o acolheu aos valores morais e aos princípios éticos por ele defendidos.

Assim como em todas as religiões, os preceitos positivos e edificantes precisam sair das liturgias e doutrinas, para o cotidiano real dos que querem construir melhores dias.

26 abril 2007

JOGOS E ILEGALIDADES

A exposição pública do envolvimento de juízes, policiais e advogados com o esquema que favorece o funcionamento de bingos para benefício de bicheiros e empresários do ramo de jogos ilegais causa perplexidade na sociedade e desacredita as instituições.

A Polícia Federal no exercício de suas atribuições desvenda uma rede de corrupção, lavagem de dinheiro e uso desmedido de poder, engendrado com a conivência das autoridades locais, sustentado na expedição de liminares que autorizam a manutenção dos bingos, ao largo dos parâmetros legais.

A constatação de que escolas de samba do carnaval carioca são lideradas por indivíduos envolvidos nesta combinação ilícita torna nebulosa a explicação sobre a origem dos recursos da mais linda das festas populares do país.

Violência e corrupção são ingredientes já conhecidos num confronto persistente de verdadeiras máfias pelo controle da arrecadação das máquinas caça-níqueis.

Espantada com a complexidade das denúncias e com a intrincada relação estabelecida entre o poder e a bandidagem, a população quer o esclarecimento dos fatos e a punição exemplar dos culpados.

Mais do que um compromisso público, a revelação das entranhas dessas ilicitudes, e a conseqüente responsabilização dos seus autores é o único caminho para poupar a imagem das categorias profissionais a que pertencem e das instituições que representam.

31 março 2007

O PAÍS DAS MARAVILHAS

O Tribunal Superior Eleitoral anunciou a construção de um novo e luxuoso prédio em Brasília, cujo investimento superará os trezentos e vinte milhões de reais.

Comissão da Câmara dos Deputados aprovou para os legisladores federais uma ajuda de custo adicional para exercício de seus mandatos no valor de cinco mil reais, sem necessidade de comprovar ou justificar os gastos, além de um significativo aumento salarial. A proposta ainda será votada no plenário.

O presidente da República chamou de “heróis” os políticos que assumem os cargos ministeriais em troca de salários de oito mil reais.

O que se depreende dessas notícias é que não foram somente as águas de março que inundaram nossas cidades causando o caos no espaço aéreo e no transito das avenidas das metrópoles.

As mentes palacianas também foram invadidas por uma criativa inspiração de fazer inveja aos contistas infantis, embarcando numa fantasiosa viagem por um país das maravilhas, desconhecido pela maioria da população brasileira.

Desnecessário comentar e criticar os desperdícios, as leviandades, as imoralidades.

Para um povo carente de emprego, habitação, saúde e educação, que precisa sobreviver na insegurança das metrópoles, essas iniciativas são aberrações que causam profundo sentimento de frustração com os governantes, semeando desesperanças, abortando projetos de vida, estimulando a prática de se obter vantagens sobre o valor da solidariedade e do desenvolvimento da sociedade.

A exposição intensa na mídia do caos nos aeroportos – respeitados os passageiros prejudicados e os trabalhadores do setor que são os principais perdedores – é também uma demonstração de como olhamos para interesses de minorias privilegiadas enquanto damos as costas aos inúmeros problemas de transporte público espalhados pelo país.

Precisamos olhar para o Brasil de verdade que habita no sertão, que desbrava a floresta amazônica, que sobe e desce morros, que anda espremido nos trens, ônibus e metrôs, que chacoalha nas estradas e avenidas esburacadas, que cria calos nas mãos nos cortes de cana e nas construções urbanas. Como canta Milton Nascimento: “Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil, não vai fazer desse lugar um bom país”.

Quanto à surreal estrutura de poder em Brasília, que não se comove, nem escuta a voz da sua gente, persistirá o isolamento e a fanfarronice.

Até que a sociedade se faça ouvir, quem sabe, usando também de uma criatividade infantil, cheia de vida, de esperança, de vontade de crescer.

06 março 2007

A MOSCA AZUL

Teve uma especial importância para mim, a leitura de “A Mosca Azul”, de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto - livro que recebi do meu amigo Max. Trata-se de um depoimento importante sobre a história do Brasil nos últimos quarenta anos, pela ótica de um religioso de tendência esquerdista, defensor do socialismo e comprometido com transformações da sociedade brasileira.

Não há a preocupação de esmiuçar conceitos filosóficos, nem precisar acontecimentos históricos, mas sim, destacar idéias que mobilizaram as pessoas a construírem um país diferente, num determinado contexto, sob determinadas condições.

A conjugação de circunstâncias históricas que culminaram com a eleição de um operário metalúrgico à presidência da república – feito que independente de qualquer posicionamento partidário tem significado extraordinário – jamais se repetirá.

A resistência à ditadura, o retorno dos expatriados, a construção da legalidade democrática, a expansão dos movimentos populares, religiosos e sindicais no interior da sociedade, a mobilização dos trabalhadores urbanos e agricultores, tudo concorreu para a conscientização cidadã e a geração de expectativas superiores para o desenvolvimento do país.

Quando o partido que majoritariamente atraiu para si a liderança desse processo libertário esbaldou-se nas regalias do poder central e inibiu-se de sua história socialista, os sonhos se desvaneceram, a utopia ficou ainda mais distante e precipitou-se sobre nós o sentimento de que décadas de dedicação aos mais nobres valores humanos foram perdidos, ou pelo menos, preteridas pela complacência com o “status quo”.

Em sua sensatez, Frei Betto chama a atenção para a perenidade da opção pelos mais pobres, para a integridade das atitudes solidárias, para a permanência da aspiração socialista.

Não há motivos para nos acomodarmos aos refrões que apontaram nos últimos anos o fim dos sonhos, a queda dos muros, a globalização das mentes.

Não queremos ser cúmplices de uma sociedade que idolatra o lucro, padroniza o consumo, e incute nas crianças desde cedo a obsessão pela propriedade como instrumento de afirmação na sociedade.

Rejeitamos a miséria que nos envergonha enquanto humanos, sabendo que ela é resultado da concentração capitalista, de sistemas de produção que se transfiguram, mas não mudam na sua essência.

A humanidade que existe em nós é testemunha do que sentimos quando países de excessivo poder econômico e bélico impõem seus interesses a qualquer custo sobre os que mal podem defender-se, em que pese suas eventuais excêntricas arrogâncias.

Por tudo isso, quando as decepções parecem sobrepujar as convicções, prestemos atenção aos inumeráveis exemplos de participação criativa das comunidades, da avassaladora proliferação do voluntariado, do crescente aperfeiçoamento da participação popular nas decisões locais, do inegável aprendizado que o exercício da cidadania tem significado para todos nós, da incansável defesa da natureza pelos ambientalistas, e de tantos, que como nós, sonham com dias melhores.

O poder de mudar as coisas está tão presente entre nós, que nos excedemos em controlá-lo, evitando o desafio de um diálogo, a iniciativa de uma atitude criadora, a diferença de pensar o novo, o compromisso com a nossa identidade. Ou será que também fomos picados pela “mosca azul” ?

23 fevereiro 2007

CARNAVAL E ESPERANÇA

As incontáveis manifestações regionais que aparecem durante os feriados de carnaval retratam a riqueza antropológica e étnica constitutiva da população brasileira.

A tolerância que caracteriza a convivência dos povos do Brasil, a múltipla origem da formação da nossa nacionalidade, são elementos que reforçam o potencial criativo da nossa gente.

As conseqüências dessa diversidade cultural são complexas, e não raramente suscitam comentários preconceituosos, mentalidades elitistas e posturas separatistas, felizmente isoladas e escassas no contexto nacional.

Chama a atenção, por exemplo, a capacidade de organização e mobilização potencializada na preparação, treinamento e execução do espetáculo carnavalesco que toma ruas e sambódromos pelo país afora.

Os eventos são movidos por avassaladora paixão artística, estimuladas por ingredientes de forte competitividade e construídos sob experimentado e crescente profissionalismo dos envolvidos.

Fosse utilizada essa energia popular para a busca de novas alternativas de produção e renda, fosse canalizada essa criatividade para o aprimoramento de nossa civilidade, estaríamos certamente em outro grau de desenvolvimento.

O carnaval é uma demonstração da possibilidade real da conjugação de interesses empresariais, governamentais e populares, que se transformam em resultados coletivos expressivos.

Se não podemos eliminar barreiras históricas que impedem uma integração harmônica de realidades tão desiguais em nossos diversos “brasis”, o certo é que existem muitos exemplos promissores, que dão certo, e que não podemos deixar de aprender sobre a essência desses caminhos vitoriosos.

Claro que esse clima de festa generalizada aconteceu em meio às catástrofes ambientais, ao descrédito das instituições políticas, as barbáries urbanas, ao império das gangues e milícias sobre comunidades inteiras, sobre os quais não queremos ficar indiferentes, nem podemos.

Aproveitemos sim, modelos de sucesso, ações solidárias e cooperativas que traduzam esperança, gerem expectativas para os mais jovens e soluções comprometidas e duradouras para a maioria da população brasileira.

06 fevereiro 2007

EXTRAVAGÂNCIAS

O período de férias de verão é momento apropriado para a instalação de debates nacionais de baixa popularidade se levados adiante em períodos de excesso de noticiário.

Nesse contexto, ressurge a reflexão sobre os altos vencimentos dos membros dos poderes Legislativo e Judiciário, aos quais confiamos o exercício de algumas das mais nobres tarefas de justiça e gestão do bem público para a convivência equilibrada de toda a sociedade.

Para além dos números extravagantes que distinguem os seus salários – quando comparados a renda média dos brasileiros – o que se expõe ao juízo do cidadão comum é a eficácia do recurso alocado para essas funções, a credibilidade requerida para o exercício de cargos de tamanha envergadura, a probidade e a ética de tão privilegiados cidadãos.

A visível indiferença semeada de insensatez percebida nas respostas aos questionamentos de uma população envolvida com a busca de trabalho e sobrevivência digna, repercute como desalento generalizado que se traduz em desinteresse crescente pela atitude cidadã.

Inimaginável supor que esse descolamento da penosa realidade que atinge a maioria dos cidadãos do país possa contribuir para a eficiência do regramento social, para a eficácia do ordenamento jurídico, para o aprimoramento do regime democrático, para a operatividade do sistema representativo.

Quando enfrentam-se em tão estapafúrdias contendas, sobre o protagonismo do maior dos vencimentos, legislativo e judiciário só fazem multiplicar a desconfiança da sociedade quanto a capacidade dos poderes em estabelecer a ordem e promover a prosperidade.

O engajamento dos poderes no desenvolvimento de uma nação que aperfeiçoa sua democracia, deve partir da sua própria relação com seu papel institucional e com os desafios que lhe são outorgados.

Dos que defendem a liberdade e o direito, dos que se utilizam das possibilidades de escolha e de associação política, esperam-se atitudes edificantes, que venham contribuir para a disseminação do exercício da cidadania.

Que não tenhamos que lamentar no futuro, o tempo e a energia que foram consumidos para atender interesses particulares de doutores e parlamentares, aos quais é destinada a importante missão de inspirar prosperidade e justiça.

29 janeiro 2007

FÓRUNS E RIQUEZAS

Reunidos em Davos na Suíça, os principais dirigentes das grandes potências econômicas mundiais se debruçaram em poucos dias numa grande variedade de temas importantes para o futuro da humanidade.

A julgar pelo divulgado até o momento, o assunto principal do encontro anual reforça a preocupação das mais diversas organizações sociais pelo mundo afora: a saúde do planeta.

Parece claro que entre os números de taxas de crescimento, tarifas de comércio, subsídios e restrições, o efeito da intervenção humana sobre o clima da Terra é o mais urgente problema a ser enfrentado, sem o qual, de nada adiantarão, e para nada servirão os esforços desenvolvimentistas das nações.

Alheio aos apelos universais, o governo americano omite-se das iniciativas de defesa do meio ambiente – embora já admita a gravidade da situação.

A ação bélica no Oriente Médio de forma continuada piora o quadro de miséria das populações atingidas e torna a região ainda mais vulnerável aos desastres ambientais, como no caso recente da queima dos poços de petróleo.

O Brasil também é um país especialmente importante no cenário mundial.

Ávido por um desenvolvimento econômico que ofereça dignidade e oportunidades aos milhões de desempregados, subempregados e excluídos da vida econômica pelo fracasso do setor agrícola e parte da indústria, o Brasil é também a maior reserva biológica do planeta.

Privilegiado pela riqueza natural, o país precisa assumir a responsabilidade pela preservação das florestas e dos rios, criando perspectivas de utilização desse potencial para viabilizar arranjos econômicos sustentáveis que incluam os brasileiros à margem da prosperidade econômica urbana e essencialmente litorânea.

A exposição de idéias nos fóruns internacionais, a elaboração de planos de crescimento, a criação de fundos de investimento, serão inócuos senão acompanhados de consciência ambiental e solidariedade humana.

A solução para muitos dos problemas das grandes cidades está diretamente ligada a políticas de interiorização do país, de aproveitamento de recursos naturais estratégicos e da formação de uma comunidade científica sólida capaz de transformar essa riqueza em alternativas efetivas de desenvolvimento social.

13 janeiro 2007

RECOMEÇAR


O momento presente tem uma riqueza infinita mergulhada numa vastidão de possibilidades. A liberdade individual de decidir por um caminho, de optar por uma fonte, de escolher uma alternativa é uma indelegável e irrestrita oportunidade, que se multiplica e se eterniza a cada fração de segundo.

O ser humano histórico, amarrado por suas tradições, contido por suas crenças infantis, reduz o espaço da sua criatividade e torna-se cativo das convicções ultrapassadas e das ambições contemporâneas.

O movimento conflituoso dos povos, das castas e das culturas invade as relações dos humanos com os seres e a natureza. A descontrolada ocupação do planeta desafia as leis naturais e coloca em risco o futuro da espécie e do meio ambiente.

Nas famílias ou nos arranjos sociais modernos, as diferenças psicológicas são tragadas pela necessidade de socialização aparente, dissociada da solidariedade construtiva.

A afirmação da pessoa, enquanto personalidade única, sucumbe aos modelos estabelecidos, que por sua vez, determinam condições primitivas de convivência social.

Crescer em humanidade é uma necessidade fundamental superior aos galanteios do poder e ao perfume das riquezas materiais. Somente pelo exercício persistente da essência humana encontraremos soluções íntegras para os enormes desafios que a existência social nos apresenta.

A urgência de atitudes colaborativas entre os povos é construída a partir das iniciativas fraternas dos indivíduos. A perspectiva de um futuro mais altivo é resultado de ações inovadoras, de posturas harmoniosas e inflexões inteligentes sobre o status quo.

A existência é palco para experimentação consciente das nossas habilidades. Colocá-las a serviço da coletividade é decisão pessoal e intransferível. Recomeçar um ano, recomeçar uma carreira, reinventar a vida.

Tão estimulante quanto recomeçar é abraçar as pessoas, aspirar novas oportunidades, recriar comportamentos, transformar o mundo. O desenho de uma nova era começa pelos traços mais simples, pela visão de um sonho, pela liberdade criativa. Mãos a obra!


03 janeiro 2007

BRUTALIDADE E ALENTO

Duas faces da violência marcaram a passagem para o ano novo: uma, a morte por enforcamento de Sadam Houssein, ex-presidente do Iraque; a outra, a série de atentados desencadeados por bandidos no Rio de Janeiro.

Não tentarei encontrar semelhanças entre esses acontecimentos pois isso nada acrescentará em nossa reflexão. Se algo pode unir esse horrível noticiário que recheou a época do revellion é a nossa repulsa ao ato brutal, à lógica da morte, à preguiça do ódio.

A eliminação de Sadam atende aos interesses dos Estados Unidos, não mais por sua importância política ao lado de seus aliados sunitas, que embora minoria, dominaram o Iraque nos anos em que seu líder era apoiado pelos mesmos que hoje o excluíram de cena.

O golpe letal cumpre a emergência do governo Bush em oferecer à sociedade americana uma indicação da possibilidade de desfecho para uma invasão malsucedida ao Iraque, que não consegue por fim à enorme crise política e social daquele país.

O pretexto da vingança contra o líder sanguinário é mote para o arrefecimento das críticas à improdutividade da presença das forças americanas no Oriente Médio e à improbabilidade de uma solução de curto prazo para a estabilidade política.

No Rio de Janeiro, a surpreendente – se é que ainda podemos nos surpreender – série de ataques dos bandidos feitos aos postos policiais, aos ônibus de passageiros, e outros alvos quaisquer.

No episódio atual chamou a atenção de todos a constatação da existência de milícias – forças paralelas que segundo os meios de comunicação são formadas por membros da própria polícia e de atividades afins – que tomam favelas e bairros do Rio para oferecer a segurança substituindo o Estado de modo ilegal, em troca de taxas abusivas e exploração de serviços “públicos”.

As comunidades sobreviventes ao descaso e ineficiência das instituições, rendem-se às opções existentes – à vigilância autoritária dessas milícias ilegais ou ao cerco desagregador e desumanizante dos traficantes na busca do êxito do seu comercio de drogas ilícitas.

O combate à entrada de armas e a eliminação da rota das drogas ultrapassando a nossa fronteira são desafios importantes. A carência de habitação com urbanidade mínima e de saneamento básico humilham a população favelada.

Não são desprezíveis nesse contexto onde a brutalidade impera, a ausência do Estado protetor, a falta de empregos, a carência de políticas educacionais e esportivas para os jovens, a situação caótica dos hospitais, a escassez de infra-estrutura urbana e o esgotamento dos transportes públicos.

Em meio aos mais diversos problemas que circundam o ambiente das favelas no Rio, um sinal de entendimento entre o governo federal e novo governo estadual sobre formas estratégicas de enfrentá-los, pode ser a semente de esperança que faltava àquela população, cansada da humilhação e do desprezo governamental.


Um novo alento aos que querem viver em paz na cidade maravilhosa, o momento pode ser o início de uma caminhada mais sóbria, porém planejada e eficaz dos governantes e da sociedade, para o estabelecimento de um outro nível de civilidade, com mais dignidade e segurança para os cidadãos fluminenses.

26 dezembro 2006

NOTÍCIAS DO BRASIL


A crise dos transportes aéreos no Brasil transformou-se em singular fenômeno que marcará na memória, o final de ano de 2006.

Desde o acidente com o avião da Gol, vôo 1907, que fazia o trajeto Manaus – Brasília, chocando-se com um jato Legacy, aeronave particular que voava no mesmo trajeto, o setor aéreo tornou-se atração dos noticiários e invadiu os debates pelo país afora.

Lances improvisados do governo, tentando atenuar os efeitos da mal esclarecida deficiência do controle de tráfego aéreo, supostamente engendrada pelos próprios controladores, aumentaram a insegurança no setor.

Ficou evidente logo após o acidente do avião da empresa Gol que os controladores operam em ritmo extenuante. Os radares tiveram sua eficiência questionada, e os problemas crescem em ambiente de concorrência acirrada entre as empresas aéreas, com o crescimento do movimento nas rotas existentes.

A crença histórica na segurança do passageiro com essa modalidade de transporte foi duramente atingida, e a conseqüência dessa mudança de ponto de vista ainda poderá ser avaliada.

O custo baixo dos vôos que popularizou o acesso e inchou as filas dos check-ins pode ter sido um dos fatores de esgotamento da estrutura dos aeroportos, do afrouxamento da atuação dos órgãos de fiscalização, e da sobrecarga das rotinas de segurança, em especial do controle de tráfego.

A manutenção simultânea de seis aviões pela TAM e a cessão de outros pela FAB para cobertura das linhas prejudicadas são novos ingredientes de uma crise que ainda tem muito a ser esclarecida.

Também não custa lembrar o tragicômico pedido de congressistas por aeronaves da FAB para levá-los às suas bases antes do Natal, quando milhares de mortais comuns se amontoavam em saguões de aeroportos sob a (des)orientação de funcionários estressados com a instalada desordem no sistema da aviação comercial brasileira.

Interessante ressaltar que o caos nos transportes aéreos atinge os mais variados setores da sociedade, de modo particular e no interesse público e da economia.

Serve para que reflitamos sobre a necessidade de uma atenção redobrada na infra-estrutura do país, para que possamos trilhar o caminho do crescimento.

Do ponto de vista humano, nos sensibilizamos com a situação das pessoas em suas angustiosas esperas por um vôo que os levem aos seus destinos. Mas estamos falando de uma minoritária fatia da população que tem acesso ao transporte aéreo.

São incontáveis as situações a que são submetidos os brasileiros de menor renda para se deslocar pelo país.

Transportes clandestinos fazem rotas entre o eixo Rio/São Paulo e o norte e nordeste do país, embarcações que viajam pelos rios da Amazônia ultrapassando a quantidade máxima permitida, trens, metrôs e ônibus que com suas superlotações humilham os cidadãos no cotidiano das cidades.

Há muito que se fazer pela dignidade do cidadão brasileiro, e a nossa perplexidade diante dos fatos expostos à exaustão na mídia, precisa estar acompanhada de uma objetividade um pouco antipática: o atraso sucessivo nos vôos comerciais não é o problema número um do Brasil, especialmente quando estamos às vésperas de virar a pagina do calendário para um novo ano.

Olhar para o Brasil e para o futuro de modo amplo, construindo o melhor que pudermos fazer, para benefício de todos os brasileiros: essa deveria ser a nossa principal notícia .

13 dezembro 2006

JUSTIÇA E IMPRECISÕES

São cada vez mais freqüentes as notícias de erros jurídicos que tem como desfecho a trágica infelicidade de inocentes, expostos aos indesejáveis ambientes reservados aos criminosos e delinqüentes nos presídios e delegacias pelo país afora.

Procedimentos equivocados, prazos descumpridos, indícios mal apurados são componentes de uma desgovernada jornada ao cumprimento da lei, insensível às evidências, intransigentemente burocrática.

Fosse o cidadão, crédulo que as instituições de poder estão à sua disposição para a efetiva solução de suas demandas garantidoras de seus direitos, e esses erros não teriam maior repercussão social.

Infelizmente, a percepção da sociedade não reflete essas aspirações.

Os ritos jurídicos reproduzem as desigualdades sociais vigentes, onde os mais poderosos utilizam-se de estratégias legais diversas para prolongar processos intermináveis e escapar das imposições legais. Para os mais pobres, alvo mais freqüente dos erros jurídicos, as decisões são mais rápidas e expostas à imprecisões, que resultam em conseqüências humanas de difícil mensuração, mas de importantes significados.

É verdade que após a constituição “cidadã” de 1988, muitos direitos foram incorporados ao cotidiano, melhorando as relações dos consumidores, o respeito às minorias, os direitos trabalhistas, entre outros.

Não se pode desprezar a crescente consciência dos brasileiros para a defesa dos direitos tanto coletivos, quanto individuais, nas últimas décadas.

Entretanto ainda há um longo caminho para que os meios legais estejam acessíveis aos que mais necessitam da ação reparadora do Estado.

Os próprios membros do poder encarregado de preservar a harmonia da vida em sociedade, oferecem exemplos de conduta reprováveis, quer quando se apropriam de recursos públicos para benefícios salariais descolados da realidade nacional, quer quando persistem na adoção de práticas de nepotismo em sua estrutura funcional.

É preciso reconstruir a credibilidade do judiciário a partir de ações inclusivas para os menos privilegiados. Reforçar a idéia de que “justiça” não seja apenas uma palavra que representa um poder institucional, mas que signifique a solução imparcial dos conflitos de interesses, valorizando a convivência humana dentro de padrões elevados de ética.

A FORÇA DO POVO